Já fazia alguns meses que eu não ocupava aquele lugar. Quase três meses em viagem, um mês em suspenso do mundo. A sensação era de que eu não sabia mais como se fazia. Como se faz uma apresentação? Como se escreve um roteiro? Será que ainda faz sentido nos encontrarmos como quadradinhos flutuantes numa tela, quando o mundo parece nos implorar pra sair correndo de casa e pisar numa grama enquanto há grama, enquanto há mundo?
Ainda bem que eu marquei uma data. Mandei aviso. Não sabia se ia aparecer alguém. Podia muito bem ser só eu na sala, olhando pra câmera. Em algum momento, enquanto caminhava pela casa entre pegar água e óculos, pensei em como era fascinante o fato de eu já não ter medo de estar sozinha numa sala olhando pra uma câmera. Anos atrás, quando comecei a olhar pra câmera e reunir outras pessoas, com ou sem suas respectivas câmeras, eu congelava de medo de ninguém aparecer. Brincava que era como o medo de ninguém vir à minha festa de aniversário. Algo que sequer é um trauma real meu, mas que sempre funcionou como metáfora para uma ansiedade grande demais.
Então, vejamos: medo de estar sozinha, superado. Medo de não saber o que falar, esse eu acho que nunca tive. Medo de ser irrelevante, medo de desperdiçar o tempo dos outros, medo de ter perdido a minha chance quando ela passou batendo à porta? Me vê um muito de todos.
Medo de recomeçar
A escolha do tema para esse ciclo temático nasceu do próprio coletivo. A proposta era simples e sábia: em vez de saltarmos de assunto em assunto a cada mês, mergulhar com mais tempo e cuidado em cada tema. O escolhido foi Coragem pra Recomeçar. Um tema que já estava caindo de maduro: janeiro, ano novo, revoluções e revolucinhas acontecendo por dentro e por fora. Fazia todo sentido olhar com mais profundidade para a pergunta que atravessa tantas vidas: como é que a gente recomeça?
Ao contrário de outros ciclos, como o da Obediência e o da Armadura da Perfeição, em que fiz questão de reunir um corpo de referências para orientar o nosso percurso, aqui eu consultei a mim mesma. Não por autoimportância, mas por incapacidade de elaboração. Em janeiro, contei com a compreensão e a paciência dos membros para fazermos um encontro praticamente sem roteiro, inspirado por uma carta de um oráculo nativo norte-americano. Em fevereiro, não nos encontramos.
Aqui cabe uma ressalva que é quase um título: no Recomeçar, nós não só acolhemos a possibilidade de cada pessoa operar no seu ritmo e se adaptar às suas condições; nós encorajamos isso. Isso tem, é claro, seus desafios. Talvez seja justamente por isso que seja tão difícil escalar algo nesse modelo. Mas, como fundadora e sustentadora do coletivo, esse é o caminho que me interessa: comparecer da forma mais constante que eu puder, entregar a minha maior competência possível e, ao mesmo tempo, modelar uma forma de viver em que a competência deixe de custar a saúde. Não é uma linha simples de navegar. Mas eu não me vejo percorrendo outra.
Volto, então, à minha escrivaninha: câmera ligada, duas garrafas de água gelada, sempre duas, um café, meu caderno onde anoto fervorosamente cada palavra de cada pessoa, tanto por interesse quanto para domar a minha própria atenção, e caneta a postos. O Spotify toca uma fila de músicas que preparei para a chegada e para os primeiros minutos de espera, enquanto a capa da apresentação convida os membros a deixarem uma novidade no chat pra matar a saudade.
Acendo as velas.
Acendo o incenso.
Ligo a câmera.
Tiro o microfone do mudo.
Duas pessoas, que fazem parte do coletivo desde 2024, quando ele nasceu, já estão conectadas. Mais pessoas entram depois. Mas, se tem uma coisa que ensinei a mim mesma nesses anos de reuniões e eventos online, é que com duas pessoas já dá pra fazer uma festa.
Os encontros que facilito costumam seguir uma espinha dorsal parecida: boas-vindas, combinados, uma respiração para chegar ao corpo, o conteúdo em si e, ao final, algum tipo de fechamento. No Recomeçar, esse percurso ganha a forma dos quatro atos que estruturam meu livro Um Passo por Dia: um passo para trás, um passo para dentro, um passo para fora e um passo para frente. Sem querer, querendo, eu desenhava meus roteiros em U lá na época do lockdown, inspirada pela Teoria U de Otto Scharmer, mas também pela intuição de que é preciso preparação para mergulhar, condução para emergir e intenção para conseguir voltar à superfície diferente.

Cartografia de recomeços
Para esse encontro, a minha tese era a seguinte: a força pra recomeçar não é necessariamente algo que vem de fora, nem algo que a gente constrói do zero. Ela é algo que se acessa. E, se é assim, nada mais lógico do que fazer um trabalho investigativo interno, olhar pra trás, reconstruir os passos que já nos foram decisivos e reacessar essa força.
A proposta foi simples: revisitar momentos da vida em que foi preciso recomeçar. Mudanças de cidade e de país. Maternidade. Retorno ao trabalho depois da aposentadoria. Desistência de uma carreira por abusos sistêmicos. Burnout. Recomeços sonhados, impostos, adiados, sofridos.
O tempo foi pouco. E sempre será pouco diante da riqueza das histórias de vida, das transformações que se desenrolam dentro de cada pessoa. Ainda assim, bastou para que algo precioso acontecesse.
Nós nos ouvimos umas às outras não apenas para conhecer as histórias, mas com uma intenção clara: encontrar, em cada relato, uma ou mais forças que se revelavam na escuta.
“Eu aprendi que eu tenho forças para recomeçar. Sempre.”
A cada medo, a cada perda, a cada travessia, respondíamos umas às outras com aquilo que nos saltava aos olhos: a empatia da outra, a adaptabilidade da outra, a sensibilidade da outra, a prudência da outra, a coerência da outra, o pioneirismo da outra, a perseverança da outra, a criatividade da outra.
Foi aí que o planejamento precisou dar lugar à realidade. Se a proposta era percorrer quatro estágios, o primeiro tomou quase o tempo inteiro do encontro. Não apenas pelas limitadas capacidades de gestão do tempo desta que vos escreve, já bastante documentadas. Mas porque talvez o maior exercício de que estamos precisando seja justamente este: ouvir com atenção, ouvir com intenção, ouvir até que a história do outro nos devolva alguma coisa sobre a nossa.
Coragem é substantivo coletivo
Quem esteve conosco comentou que a prática foi um convite poderoso para olhar pra trás e reconsiderar trechos da própria história que um dia pareceram impossíveis e que, hoje, correm o risco de parecer banais.
Lembrar quando o que você tem hoje ainda era um sonho muda a textura do presente.
Reconectar-se com o que já superamos nos ajuda, sim, a lembrar da nossa capacidade. Nos coloca com as mãos de volta no volante. Nos lembra que pode até parecer que não vamos saber o que fazer, mas muitas vezes o movimento já existe no corpo antes mesmo de virar linguagem.
Só que não paramos aí. E, pra mim pelo menos, o presente desse encontro foi descobrir que a minha tese estava certa, mas incompleta.
E a força?
Sim, a força é algo que se acessa.
Mas não se acessa sozinho.
Eu posso até tentar escavar minhas entranhas, descer ao submundo, procurar num microscópio a coragem que tantas vezes me falta. Posso tentar me convencer de que o caminho está todo dentro, que basta silêncio, disciplina e profundidade suficiente para encontrar o que preciso.
Mas a verdade é que, em mim, essa força não acende no vazio.
Em um mundo embriagado pela fantasia da autossuficiência, parece quase indecente admitir que a gente não dá um passo sequer sozinho. E, no entanto, talvez seja exatamente isso.
A força é um tesouro que está, sim, sob nossos pés. Mas o mapa raramente está nas nossas mãos. Às vezes ele está com alguém que só precisa ter a delicadeza de apontar a direção. E isso muda uma vida.
Não muito diferente deste texto, cuja intenção inicial era ser o resumo de um encontro de duas horas e que, depois de centenas de palavras, ainda mal saiu dos seus primeiros movimentos, nossas falas também se estenderam para além do relógio e para além das retinas cansadas de luz azul.
Não muito diferente desse ensaio, nossas palavras se estenderam para além dos limites impostos pelo relógio – e também pelas nossas retinas sobrecarregadas da luz azul da tela que nos une.
Ainda faremos a parte dois deste encontro, e o plano é fazermos um inventário das nossas forças e começarmos a olhar para os recomeços que se apresentam e como podemos vivê-los com a beleza que eles merecem (e nós também).

