é uma tragédia
é uma música triste
mas continuamos cantando mesmo assim
porque esse é o ponto
saber como termina
e ainda assim começar a cantar de novo,
como se dessa vez fosse dar certo
aprendi isso com um amigo meu
(Hadestown, 2019)
O primeiro registro escrito do mito de Orfeu e Eurídice data de mais de dois mil e quinhentos anos atrás. Uma história de amor, em que Orfeu atravessa o submundo para salvar Eurídice; uma ode à arte, em que o dom da música pode mover até os deuses; e, inevitavelmente, uma tragédia. Um instante de insegurança o leva a olhar para trás, condenando Eurídice a retornar ao submundo. Ela morre duas vezes; ele se despedaça duas vezes.

O mito que persiste
Os mitos sempre serviram para transmitir lições, reflexões, sentimentos que ultrapassam razão e lógica. A arte também faz isso. E quando mito e arte se encontram, nasce Hadestown, um consagrado musical que estreou na Broadway em 2019 e neste mês recebeu produção especial aqui na Holanda.
Durante junho, me permiti mergulhar nos mitos – aprendendo sobre eles, voltando minha atenção aos seus simbolismos e manisfestações em mim e no mundo. De todos, o que mais me fascina é o de Perséfone, a rainha do submundo. É dela a narrativa que explica as estações: o mundo floresce quando está entre nós e fenece quando retorna a Hades. Aqui e agora, quero me deter em Orfeu, Eurídice e em como esse mito ecoa na minha própria história.
É uma história antiga
Me descobri entusiasta do teatro musical durante o meu segundo burnout, já vivendo aqui na Holanda: algo na trilha sonora de Hamilton me comovia quando nada me tirava da inércia. Ver a produção em Londres, em 2019, foi um dos momentos mais marcantes de toda a minha vida.

Com Hadestown já foi diferente: ouvi alguns anos atrás, mas não me tocou tanto. Só agora, em outro tempo e contexto, a história tomou um novo sentido para mim.
O que aparenta ser o foco da história, que é o apaixonamento entre Orfeu e Eurídice, não é o que me capta mais profundamente – me comovo muito mais, por exemplo, com a virada melódica na cena em que Hades e Perséfone, exauridos em um casamento longo cheio de concessões, se deixam embalar pela música e dançam, como se fosse a primeira vez.
Mas se tem algo algo em Orfeu que me atravessa indiscutivelmente. Nas palavras de Hermes,o que o narrador da história o deus mensageiro:
Ele podia te fazer ver como o mundo poderia ser –
apesar de como ele é de verdade.
Tudo é jornada
Existe algo muito simbólico nos mitos, algoque se conecta de forma muito significativa com as nossas próprias histórias: a ideia de rito de passagem, das jornadas de iniciação.
Talvez você conheça a jornada do herói, mapeada pelo Joseph Campbell, que estudou os mitos profundamente e observou que as histórias mais significativas tinham alguns elementos em comum. Quem estuda contação de histórias, roteiro, cinema ou teatro provavelmente já se deparou com esse conceito. O que à vezes a gente esquece é que as nossas próprias histórias também tem um pouco de jornada de herói: quando algo significativo acontece nas nossas vidas, partimos de um cenário conhecido, atravessamos um limiar, recebemos aconselhamento e enfrentamos uma série de obstáculos até chegarmos do outro lado – certamente diferentes.

De certa forma, a história de Orfeu e Eurídice conversa com a nossa iniciação ao amor romântico, aos nossos apaixonamentos por pessoas, lugares e ideais.
Orfeu perde Eurídice primeiro pela ilusão de salvar o mundo. Depois, quando negocia o inegociável e se compromete a seguir um comando quase irresistível: “não olhe para trás”.
Quando perde Eurídice pela segunda vez, ele também a inocência: descobre que o mundo é injusto, e ele é falho. Diante disso, não é de se condenar uma resignação à amargura e ao desespero. E Orfeu, incapaz de se libertar de seus ideais, de fato sucumbe a eles.
Mas Hadestown aponta além: entre desejo e realidade, sempre existirá um espaço, uma falta. Desde a nossa estreia no mundo, precisamos lidar com o fato irreconcilável de que nem todos os nossos pedidos serão atendidos; nossos desejos talvez não se concretizem, o amparo é imperfeito.
Triste, sim. Trágico, até.
Mas será que termina aí?
É uma tragédia?
E é aqui que eu revelo o momento em que Hadestown me fez chorar copiosamente, sentada em uma poltrona de veludo bordô no mezanino do Teatro Carré de Amsterdam, no dia 30 de agosto de 2025.
Eurídice é sugada pelo submundo. Orfeu desaba em desespero. Hermes se aproxima, começa a cantar a reprise de Roadway to Hell, que abre a história, lembrando que essa é uma tragédia. Hermes vem dizendo isso desde o início, quando tudo era flor, riso e encantamento.
Esse instante não deveria pegar ninguém de surpresa. Mesmo assim, quando o anunciado se concretiza, o ar se torna rarefeito no teatro.
Hermes é um mensageiro que não edita só os melhores momentos, ou tampouco se atém à tristeza. Ele celebra a mágica em “saber como a história termina, e ainda assim cantá-la de novo”.
A canção continua. A vida continua.
Espiral de encantamento, queda e redenção.
A gente canta, começa, termina, recomeça e canta de novo.
Dia 30 de agosto passado, Gilberto Gil esteve no programa do Luciano Huck cantando, falando sobre a perda da sua filha Preta, e derramando em TV aberta uma mágica que só ele tem. Entre uma canção e outra, Gil partilhou a ideia de que o pesar tenha três níveis: a dor funda, a espera, e por fim o canto.
Assim como Hermes, Gil nos lembra que a música é travessia.
Continuar cantando
Um dos maiores trunfos de Hadestown é que ele materializa o que o narrador Hermes fala sobre continuar cantando a mesma canção: o próprio musical vem recontando o mito de novo e de novo. A cada noite em cartaz, a cada apresentação televisionada, a cada novo play no streaming, há mais de seis anos.
A cada nova performance, Hadestown sustenta uma esperança ingênua: “quem sabe dessa vez o Orfeu não vai olhar pra trás” – ao mesmo tempo em que, concluindo como sempre, nos lembra que a realidade não tem dó da nossa ingenuidade.
Se você me conhece, sabe que já atravessei revoluções e revolucinhas. Sou grata a cada uma delas, não mudaria uma vírgula da minha história. Você também já atravessou suas marolas ou cataclismas – e talvez reconheça essa sensação (talvez esteja passando por ela nesse instante).
Existem partes nossas que ficam cristalizadas no tempo. Que volta e meia nos perguntam: e se eu não tivesse olhado pra trás? E se eu tivesse partido? E se eu tivesse ficado?
Partes que custam a se desapegar da realidade como conhecíamos antes da nossa ingenuidade esvanecer. Partes que tentam negociar, barganhar para que não sigamos em frente, que tentam nos convencer de que um ruim conhecido é melhor do que um bom desconhecido. Partes que preferem morrer apegada a um ideal do que viver conectadas a uma realidade diferente das suas expectativas.
Na mitologia, os deuses e semideuses gregos nunca foram apresentados como infalíveis. Muito pelo contrário: as histórias evidenciam justamente como às vezes o maior poder de alguém pode tornar-se seu maior revés.
Orfeu nos lembra da doçura, da poesia, e da possibilidade sempre à nossa disposição de nos permitirmos dançar como se fosse a primeira vez, de nos deixarmos apaixonar e encantar como se mais nada importasse. Com sua arte, Orfeu persuadiu deuses, musas e até mesmo o senhor do submundo – mas incapaz de comandar a si mesmo.
Sua tragédia nos ensina que, por criativos que sejamos, estamos eternamente condenados (ou abençoados) a viver no plano material, que tantas vezes contrasta com as nossas ideias, utopias e expectativas.
Não olhe pra trás: não há mais nada lá
E se eu te dissesse que, para além do romance, a história de Orfeu e Eurídice talvez ofereça também algo sobre autoperdão e recomeço?
Importa menos pra onde Orfeu olha, quem vive ou quem morre na história. O que importa são os processos simbólicos: o rito de passagem, sua iniciação, a perda da sua inocência.
Talvez seja mesmo inevitável que Eurídice vá para ao submundo, afinal ela já estava lá desde o final do primeiro ato. Talvez a verdadeira tragédia não tenha sido que Orfeu tenha falhado em trazê-la de volta aos vivos, mas que ele tenha se deixado enganar, entregando sua própria vida e sua própria arte ao que já não tinha mais vida.
Talvez a redenção esteja em se perdoar, em seguir disponível para capítulos que ainda não foram escritos.
Seguir cantando não é acreditar que o casal retorne intacto ao mundo dos vivos para serem felizes pra sempre: é conceder a Orfeu a chance de seguir vivo com alguma dignidade.
Ao perder Eurídice, Orfeu privou o mundo inteiro da sua presença, música e poesia. E talvez seja pra ele que Hermes tente cantar, de novo, de novo e de novo.
Alguns pássaros cantam quando o sol brilha intenso –
nosso aplauso não é para eles, mas para os que cantam na calada da noite.
Algumas flores brotam onde a grama é mais verde –
nosso aplauso não é para elas, mas para as que florescem na neve amarga.
Nosso brinde é para eles.
Persistir, perdoar e recomeçar
E é por isso que eu sigo escrevendo. Pra me reconhecer um pouco mais a cada dia. Pra me celebrar um pouco mais a cada dia. Pra me perdoar um pouco mais a cada dia. Pra desenrolar a trama do mundo um pouco mais a cada dia.
Eu escrevo pra me permitir atravessar os limiares, as iniciações e as jornadas sem tanto apego pelo conhecido. Escrevo pra mapear os mares nunca dantes navegados e pra lembrar dos lugares que já me acostumei.
Eu não escrevo na esperança de mudar o passado, mas de habitar o presente com meu corpo, alma e coração e relembrar que há sempre um futuro em devir, e há sempre uma canção pra gente cantar, de novo e de novo, quantas vezes for necessário.

