Nesta sexta-feira, 17, vou receber uma nutricionista clínica para um workshop sobre alimentação para mentes sobrecarregadas e divergentes.
Quando penso nesse evento, lembro de todos os acompanhamentos que já fiz com nutricionistas nos últimos 20 anos, a grande maioria excelentes profissionais, mas quase sempre com o emagrecimento como foco.
Demorou muito tempo pra eu entender que alimentação pode ser uma fonte de energia e de presença, não de culpa ou adequação a um padrão estético. Partilhar essa virada com outras pessoas me realiza. E me lembra do quanto é revolucionário agir na direção de quem a gente realmente é.
Mais de 20 anos em acompanhamento pra começar a entender o que é saúde mental
Em alguns casos, o meu quadro de compulsão alimentar era levado em consideração e informava muito do manejo; já em outros, a balança, a fita métrica e a retenção calórica eram soberanas.
Eu tinha feito anos e anos de terapia, passado por inúmeros psiquiatras e medicações, mas, na minha perspectiva, tudo funcionava a serviço do meu comportamento alimentar, que por sua vez funcionava a serviço do meu peso.
Minha ansiedade, minha depressão, minha sobrecarga de trabalho e até meus momentos de hipomania se expressavam em oscilações de peso. E, durante muito tempo, essa foi a principal métrica. Ou pelo menos a principal linguagem.
Foi a partir do burnout, já morando aqui na Holanda, que algo começou a mudar.
Entendi que a nossa cabeça funciona pra mais do que pensar e produzir sem parar.
E que o nosso corpo funciona pra mais do que carregar essa cabeça de um lado pro outro.
Entendi que somos mais do que uma casca.
Que dentro de nós existe pulsão, criatividade, desejo, medo.
Que a mente é complexa, fascinante, tenebrosa.
Que o corpo é capaz de muito mais do que a gente imagina quando é bem cuidado.
E que todas as emoções passam por ele antes de virar as histórias que contamos a nós mesmos.
Falar de alimentação é abrir uma caixa de pandora
Pensar em comida nos leva a memórias de família, às histórias que contamos sobre nossa capacidade de autocuidado, à percepção de saciedade, à origem da comida que temos à disposição.
E também ao impacto que ela tem: nos fazer sentir mais livres e energizados; ou mais reféns das circunstâncias.
Nesses últimos oito anos vivendo, estudando e escrevendo sobre burnout e neurodivergência, tem momentos em que eu faço questão de parar pra apreciar a dimensão do passo que estou dando.
E aqui faço questão de fazer isso.
Agradeço a cada pessoa que faz parte do Coletivo Recomeçar, desde o começo, pelas pequenas e grandes revolucinhas que engenhamos. Aqui, em especial, agradeço ao Pedro, nosso recomeçante lusitano, que está conosco há quase dois anos e que, ao longo de todo o seu processo de reabilitação, demonstra uma dedicação impressionante à manutenção da atividade física e ao cuidado com a alimentação, incentivando todas nós a fazer o mesmo e nos trazendo a Joyce.
Ao abordar o funcionamento singular de mentes em sobrecarga e de mentes neurodivergentes, e o que isso faz no nosso comportamento alimentar, a Joyce nos lembra que nem tudo é salada instagramável – e isso nos libera recursos pra trabalhar a favor de como operamos. Num tempo em que a magreza extrema volta a ser celebrada, olhar pra alimentação como fonte de energia é um passo audacioso.
Independente de você fazer parte deste evento ou não, leve essa reflexão com você.
Talvez aí seja um recomeço pra hoje.
Workshop Nutrição para Mentes Sobrecarregadas e Divergentes, com Joyce Rouvier
🗓 Sexta-feira, 17 de abril de 2026
🕐 12h30 de Brasília • 16h30 de Lisboa • 17h30 de Amsterdam
☀️ Online | Acesso incluído na assinatura do Coletivo Recomeçar
Vamos abrir 5 vagas para novos membros entrarem a tempo de participar
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