Ainda lembro de quando dizíamos que o nosso tempo era o melhor já vivido na humanidade.
Ainda lembro de quando concordávamos que as coisas poderiam estar piores.
Se a memória não me falha, houve um tempo em que falávamos de outros assuntos.
Hoje, causa estranheza assistir um filme onde as pessoas se tocam livremente.
A gente tem medo de sair e o corpo adoecer,
medo de ficar e a mente colapsar.
Eu, que gosto de ficar em casa, já não aguento mais olhar pras mesmas paredes.
Eu, que moro a 10 mil km da minha família, já normalizei a impossibilidade do encontro.
Quando o meu espírito adoeceu, eu tinha o mundo inteiro na minha mão.
Aeroportos, trens, ônibus e barcos à minha disposição.
Cadê a liberdade que tava aqui?
Como fazer planos se todos os dias parecem uma repetição
E se o futuro virou um borrão indecifrável?
Como lidar com a consciência de que nunca estivemos no controle?
Como enfrentar as idas ao supermercado,
As formas de encarar isso tudo que divergem tanto da nossa,
A louça que não para de acumular,
As horas que parecem segundos
O nosso despreparo emocional
Os (des)governos
E as mortes?
Como sair sem sequelas?
Como fazer de conta que isso não nos afeta?
Como ser produtivo enquanto nos falta o ar?
Com amor,
Carol Miltersteiner

