Era inverno de 2023 quando atravessei as vinícolas do Vale do Douro, em Portugal, na carona de uma scooter. A paisagem era de tirar o fôlego. Uma vista, em particular, me fez literalmente chorar de tão linda.
O rio Douro, os morros e as plantações criavam uma dança de tirar o fôlego, impossível de captar em fotos. Tem coisas que só vivendo, mesmo.

Me tocou muito observar todo um ecossistema que gira em torno do plantio, do cultivo e da produção de uma fruta que só pode ser colhida uma vez por ano. A época da colheita, chamada vindima, é um tempo de grande celebração: as vinícolas realizam eventos, a comunidade se movimenta e há uma espécie de alegria coletiva em torno da safra que vai sustentar mais um ciclo.
E a produção não acontece até que a uva esteja em condições de ser colhida.
Não existe vinho sem uva pronta.
Essa imagem não me saía da cabeça. Eu não parava de pensar no que aconteceria se aquelas vinícolas tentassem fazer a videira dar fruto todo santo dia.
Foi vendo de perto, andando por entre os vinhedos, que eu comecei a entender não só com a mente, mas com o corpo, o tamanho do golpe em que a gente caiu quando acreditou que dava para ser produtiva o tempo todo, do mesmo jeito, desde nascer até morrer.
Nada vivo frutifica o tempo todo.
E, ainda assim, é exatamente isso que esperamos de nós.
A gente pode muito bem estar cercada de dispositivos artificiais que estão sempre ligados, sempre jorrando informação, entretenimento e apavoro. A gente pode muito bem estar aprendendo a conviver com tipos de inteligência que parecem nos dar o que precisamos 24 horas por dia, 7 dias por semana. A gente pode muito bem estar se acostumando com a sensação de que tudo é instantâneo: pensou em um livro, um filme, uma música, uma resposta, uma imagem, uma ideia, uma solução? Aqui está. Tudo à disposição imediata.
Mas acontece que isso é tudo artificial.
A luz elétrica faz com que a gente não perceba que anoiteceu. O chat do WhatsApp faz com que a gente não perceba que uma conversa de verdade tem começo, meio, vinte minutos dando tchau, e fim. O feed infinito faz com que a gente não perceba que cada rolagem pode despertar uma emoção completamente diferente em nós.
A promessa de disponibilidade constante faz com que a gente esqueça que a presença também tem limite.
E quando a vida inteira começa a funcionar como se desse pra estar sempre acessível, sempre responsiva, sempre fértil, sempre interessante, algo dentro do corpo começa a adoecer.
Do tempo artificial ao ritmo natural
Foi quando passei pelo meu segundo episódio severo de burnout, já aqui na Holanda, que comecei a observar e me informar sobre nossos ritmos e ciclos naturais e sobre o impacto inevitável das transições internas e externas na nossa saúde.
Fui descobrindo as camadas simbólicas e estruturantes de coisas que muitas vezes ignoramos solenemente: as estações do ano, as fases da lua, o movimento do sol ao longo do dia, as variações hormonais, os períodos de expansão e recolhimento, os ritmos de sono, fome, desejo, energia e pensamento.
Aprendi sobre a evolução da demarcação do tempo, do relógio de sol aos cronômetros de alta precisão, da observação do céu à padronização industrial das horas, dos ciclos da natureza ao tempo abstrato das planilhas, metas e calendários. Ouvi, observei e senti o quanto diferentes culturas se relacionam com o tempo de formas diversas, e que isso impacta diretamente a maneira como se trabalha, se descansa, se convive e se adoece.
Em muitas leituras da mitologia grega, o tempo aparece dividido entre duas imagens: Chronos e Kairós. Chronos é o tempo mensurável, o tempo do relógio, da contagem, da sequência, daquilo que pode ser dividido, registrado e cobrado. Já Kairós é o tempo oportuno, o tempo da coisa quando ela acontece, o instante maduro, a abertura que não obedece apenas ao calendário.
Kairós não faz a uva brotar da videira antes da hora.
Kairós não abre uma porta antes que haja passagem.
Kairós não confunde pressa com maturação.
Sendo mulher (ou pessoa que menstrua), esse tema torna-se ainda mais concreto: o corpo não funciona em linha reta. A função hormonal é cíclica, e suas variações podem afetar o humor, a disposição, a cognição, o sono, o apetite, a aparência, o desejo e a percepção de si.
E por mais que existam inúmeros recursos para modular ou interromper alguns desses ciclos, não há como contornar por completo o fato de que somos corpos vivos. Corpos atravessados pelo tempo, pela luz, pela temperatura, pela paisagem, pelo vínculo, pela memória, pelo excesso e pela falta.
Só que tudo isso entra em conflito direto com um modelo de produção extrativista, que só parece funcionar quando existe lucro, acúmulo e disponibilidade incessante.
Aqui a tempestade se anuncia: é insustentável impor um modelo artificial a seres naturais.
E mais: é insustentável sequer pressupor que os modelos artificiais funcionem por si mesmos, pois dependem de recursos naturais, de corpos humanos, de territórios, de energia, de água, de atenção e de cuidado.
Nenhuma máquina existe fora da terra.
Nenhum sistema funciona sem corpo.
E nenhuma safra nasce de terra exausta.
Ser divergente é ouvir o corpo e a natureza mais alto
Aqui reside uma tensão importante: falar em respeitar os ciclos não significa romantizar todo o inverno. Há invernos que recolhem e ensinam, mas também há invernos que adoecem. Aprender a escutar o corpo também é aprender a distinguir uma estação difícil de um ambiente que exige defesa permanente.
O que me levou a Portugal naquele inverno foi, paradoxalmente, uma necessidade desmedida de fugir da estação. Na Holanda, o inverno se impõe monótono, gelado, úmido e sem sol. Dos oito invernos completos que passei aqui, tive episódios depressivos em todos. Não houve terapia com luz artificial nem suplementação de vitamina D que desse conta, sozinha, do impacto de uma temporada tão longa, tão gelada e tão marcada pelo isolamento.

Há pouco mais de um ano e meio, eu conversava pela primeira vez com a Mariana Moreira Alves. Ela é uma psicóloga gaúcha residente na Espanha, que atua com design de experiência e vem se especializando em neurodivergência em função da própria experiência com Altas Habilidades, TDAH e burnout.
Fizemos uma chamada de vídeo: eu, no frio holandês de fim de ano, ela, com um céu azul e montanhas ao fundo. Na região da Espanha onde ela mora também faz frio no inverno, mas o sol não deixa de dar as caras por meses, como acontece por aqui.
Durante a conversa, falei sobre o desafio de passar o inverno na Holanda. Também compartilhamos experiências de trabalhos corporativos e rotinas de vida nas grandes cidades. Nós duas viemos de Porto Alegre. Ela morou anos em Madri. Eu ia a São Paulo para trabalhar antes de ter um burnout.
Em dado momento, ao contar sobre a troca de Madri por uma cidade muito menor e com mais natureza, Mariana disse algo que nunca mais saiu da minha cabeça:
“Este lugar atende muito bem às minhas necessidades sensoriais.”
Aquela frase me deu uma linguagem que eu ainda não tinha. Porque, quando falamos de saúde mental, muitas vezes falamos de terapia, medicação, hábitos, autoconhecimento, rotina, produtividade, descanso, disciplina, limites.
Tudo isso importa, mas às vezes o que falta é olhar em volta e se perguntar: será que eu estou ouvindo a informação que meu corpo está trazendo sobre o contexto? Será que estou me colocando em um lugar que me permite florescer, ou será que estou me sujeitando ao que me deixa sem vida?
Desde que me descobri neurodivergente, conciliando TDAH, altas habilidades e bipolaridade, tenho percebido, com cada vez mais clareza, uma ideia que Christina Maslach trabalha desde suas primeiras publicações sobre burnout: pessoas sensíveis muitas vezes captam o que há de insustentável em um ambiente antes das demais.
Isso não as torna fracas.
Isso faz com que elas sejam mensageiras do que precisa ser nomeado, adaptado e transformado.
Ser divergente é, muitas vezes, ter bem menos escolha do que continuar funcionando onde já não há de onde tirar energia. É não conseguir fazer de conta que o ambiente é fértil quando a terra está árida.
É sentir no corpo aquilo que o discurso ainda tenta maquiar.
É perceber que a luz é pouca, que o ruído é demais, que a velocidade não cabe, que o solo já não sustenta.
E talvez seja justamente por isso que tantos corpos divergentes sejam tratados como um problema: porque eles denunciam, antes dos outros, a falha do ambiente.
Um corpo que entra em colapso não está necessariamente falhando.
Tantas vezes, ele simplesmente está dizendo a verdade.
Reivindicar o próprio tempo
Reivindicar o próprio tempo não significa obedecer cegamente à natureza, como se todos os ciclos fossem gentis ou como se todo desconforto precisasse ser suportado em silêncio.
Há ciclos que pedem recolhimento.
Há ciclos que pedem cuidado.
Há ciclos que pedem mudança de ambiente.
E há ciclos que revelam que a terra onde estamos tentando frutificar já não sustenta vida.

Em um mundo que confunde presença com disponibilidade, pausa com atraso, descanso com fracasso e maturação com lentidão, respeitar ciclos pode parecer antiquado, desconectado da realidade e impraticável.
Mas é justamente ao perceber e respeitar nossos ciclos, mesmo contra a maré, que mantemos a vida pulsando.
A vinha não dá fruto todo dia.
O corpo também não.
E talvez uma das revolucinhas possíveis agora seja lembrar disso antes que a próxima colheita precise nascer da nossa exaustão.

