Durante os meus dois burnouts, um dos sintomas mais explícitos de que algo estava muito errado comigo foi algo que não aparece em nenhum exame, não é visível a olho nu e tampouco surge da noite pro dia, mas que me arrebatou intensamente: sem perceber, eu fui observando, incorporando e normalizando uma série de códigos, condutas e comportamentos que não eram necessariamente meus, mas eram incentivados pelo meio onde eu me encontrava.
Era como se a cada dia de trabalho eu fosse deixando um pouco menos de mim mesma ao entrar no escritório e levando um pouco mais daquele mundo comigo pra casa.
Eu era muito jovem e desinformada pra entender que o lugar onde eu botava meus pés era um palco, que regula do nosso tom de voz à roupa, à pontuação do email, do vocabulário que usamos, dos trejeitos, piadas internas e (in)tolerâncias. E assim como a personagem de Demi Moore em A Substância (2024), que toma uma droga pra virar uma versão melhorada de si mesma e acaba perdendo o controle sobre quem é de verdade, eu não enxergava a fronteira entre o teatro corporativo e a vida real.

Mais de uma década depois dos primeiros sintomas de adoecimento, uma matéria da Você RH me fez entender melhor essa dinâmica: 45% dos líderes afirmam precisar representar um personagem no trabalho 01. Quando li, voltei pro meu próprio corpo, pro meu próprio colapso. Entendi por que alguns de nós têm tanta facilidade pra se manter nesse jogo, por que alguns de nós parecem se dar muito bem até um dia colapsarem, e como talvez a gente possa aceitar essa realidade sem deixar que ela nos destrua.
O mundo corporativo é um teatro.
Isso não é necessariamente um juízo de valor — é apenas uma constatação objetiva do jogo.
Tem quem perceba o teatro e tenha estômago pra encarar: esses se dão extraordinariamente bem. Tem quem perceba, mas não tenha estômago: pode ser que sejam repelidos pelo sistema, pode ser que se adaptem.
O pior é que muita gente não sabe ou não quer aceitar que é um teatro. Esses 45% que assumem conscientemente que representam um personagem estão, de alguma forma, nos dois primeiros grupos: eles sabem do jogo. Mas e os outros 55%? Vai por mim: tentar não ver a realidade não muda a realidade. Só faz doer mais ainda.
Porque a gente vai entrando num personagem da gente mesmo devagarinho, uma vírgula num e-mail por dia. Quando percebe, já não sabe mais o que é “a gente” e o que é personagem.
Essa crise interna é uma das inúmeras dores que nos levam ao esgotamento. A gente se pergunta, sem saber a resposta: será que dá pra sobreviver fora do personagem?
Será que ainda tem alguém aqui dentro?
Quando penso nesses personagems que carregamos por tempo demais 02, lembro também de Natalie Portman em Cisne Negro (2010). Assim como A Substância, ela perde o fio de si mesma e desaprende onde termina a performance e onde começa a vida real.

As personagens de Moore e Portman nos mostram que a assimilação de uma personagem não ocorre do dia pra noite. A ruputura de si sequer dói de imediato, mas nenhuma delas consegue se resgatar a tempo.
E no auge da performance, ambas são engolidas pelo no mesmo teatro que as ovacionou.
Se ambos terminam em tragédia, talvez valha lembrar de um final diferente: em O Show de Truman (1998), Jim Carrey vive desde que nasceu em um mundo de mentira, e precisa enfrentar seus maiores medos pra ir atrás do que é real.
Talvez por ser de um tempo mais otimista do que nossos dias, O Show de Truman nos oferece uma possiblidade de final feliz (ou, quem sabe, de recomeço sem tanta performance).
Ao atravessar um mar de mentira que o apavorava, tocar um céu cenográfico e atravessar a porta do estúdio que pensava ser seu mundo inteiro, ele passa por um rito de iniciação.
Quando decide ir embora, mesmo sem garantias, é porque ele sabe todo o conforto que tem naquela bolha é fictício.
Deixa o figurino descansar um pouco, nem que seja por um dia, e tenta lembrar de como era ser 100% você.
Até hoje, nunca ouvi um relato de burnout que não envolvesse a sensação de perder-se de si, de não se reconhecer mais. Esse processo não acontece da noite pro dia: muito lentamente, vamos cedendo ao que se espera de nós (ou ao que acreditamos que se espera), até que não nos reconhecemos mais.
É duro encarar certas realizações, como a de que o mundo do trabalho – em especial o corporativo, é um teatro.
É duro nos vermos adoecidos, colapsados, porque negligenciamos uma sabedoria que sempre esteve em nós e demos voz a demandas de quem sequer se importa tanto assim conosco.
Mas negar o palco não o faz desaparecer. Só adia o momento em que corpo e alma cobram o preço. E aumentam os juros.
Se você está nos 45%, não se culpe por jogar um jogo que foi estabelecido muito antes de você nascer, mas entenda que ele jamais deve valer mais do que a sua própria vida. Se você está nos 55%, saiba que ignorar a realidade não a transforma.
Talvez você precise sair do próprio palco um pouco, nem que seja por um dia.
Pode ser não responder email fora do horário.
Pode ser falar com alguém que te conhece de verdade.
Pode ser só sentar em silêncio, reparar no que você sente.
E observar que passo dar em direção a uma vida que não custe se perder de você.
Não há como saber o que há do outro lado da porta.
Mas, depois de vê-la, jamais haverá como fingir que ela não existe.

Referências:
- Você RH: 45% dos líderes afirmam sentir que precisam representar um personagem no escritório, por Por Izabel Duva Rapoport [↩]
- Escrevi sobre o risco de virarmos personagens de nós mesmos no ensaio Não se perca no personagem: autenticidade na era do feed harmônico [↩]

