Há exatos 5 anos, muito antes de me considerar escritora, eu postei o texto abaixo no meu Facebook.
A viagem que fiz pro Chile por 36 dias mudou tudo, de verdade.
Aqui, meu olhar de recém-chegada:
Santiago, 26 febrero 2016
Dia 2 de 36
Dia de muitas, muitas palavras.
Reflexões.
Epifanias.
Muitas pra um dia só e logo de cara, assim.
Dia de deixar no fundo da gaveta a bússola,
o GPS e o app que faria uma recomendação super inteligente para o meu roteiro.
Meu objetivo não é fazer o trajeto que todo mundo que vem a Santiago precisa fazer.
O flâneur é aquele indivíduo que simplesmente passa,
flui pela cidade.
Surgiu no século XIX (e mais que isso não me atrevo a explicar)
como a imagem de alguém que,
mais do que as estruturas e obrigações urbanas que já começavam a se impor,
queria tão somente “ser”.
Desfrutar.
Andar sem rumo ou trajetória,
tendo cada paisagem como uma experiência nova a ser desfrutada
sem necessariamente gerar algum resultado prático.
E essa autolibertação me é uma coisa muito importante.
Muito.
É mais importante que eu consiga me autorizar a passar quatro horas no terraço do hostel
escrevendo e externando tudo o que se passa aqui dentro,
enquanto a cidade permanece ali,
aguardando o meu tempo,
do que colecionar pontos visitados.
E quando me pus a caminhar e me deparei com uma banda chilena tocando Pink Floyd,
no meio de uma avenida movimentada,
para menos de 20 pessoas
– como se estivesse em um estádio,
eu entendi.
Que não importa o que tem fora.
Se é um jardim,
dez pessoas,
uma pessoa.
Se dentro a gente olha com olhos grandiosos,
curiosos e amorosos,
um solo de guitarra na calçada se torna o momento mais incrível da nossa vida.
O que significa que,
ou os dias serão maravilhosos e inesquecíveis como ontem,
ou devo ter consciência de que virão dias menos ensolarados como este.
E tudo certo.
O que importa é buscar isso,
até porque,
por óbvio que pareça,
o buscar facilita razoavelmente o encontrar.
E a busca, por si só, já vale toda uma vida.
Com amor,
Carol Miltersteiner

