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Nenhum abuso será tolerado – e por que a nossa voz importa

Neste artigo

7 minutos de leitura


“Não permita que ninguém te ensine a ser uma pessoa boazinha, que aceita as violências, e que desaprende a respondê-las.”  

Alexandre Coimbra Amaral

Existe uma voz na minha cabeça – um karma, um trauma original, uma ansiedade crônica e debilitante, que diz que eu não sei me defender. É a voz que me manda calar diante dos conflitos, ignorar diante dos incômodos e retrair diante dos ataques.

Em diversos momentos da minha história, essa voz tomou conta do ar que eu respirava. Ela abafou os meus instintos, desnorteou a minha intuição e me tirou de mim mesma.

No último ano, ela voltou a tomar conta, dia após dia, do meu trabalho, da minha escrita e do meu corpo. Nas últimas semanas, ela me debilitou profundamente, me deixando incapaz de trabalhar, socializar, ou até de aproveitar o sol que finalmente tem brilhado no meu canto do mundo.

Desde a primeira vez que ela apareceu, eu fiz o que senti sensato: me defendi de forma discreta, privada, a um ataque público que foi feito ao meu trabalho. Nunca falei uma palavra sobre o que aconteceu em público porque tenho pavor de polêmica e uma aversão crônica a conflito.

Deixei pra lá.
Só que a situação não passou.

Volta e meia, eu recebia mensagens de pessoas que sentiam que tinham visto alguma “indireta” a mim, sendo retratada como alguém que “fala sobre burnout pra ganhar like”, e como alguém que “não se recuperou de verdade do burnout”.

Durante esse ano e meio, eu tentei relevar essas mensagens e indicações.
Bloqueei qualquer contato pra que não visse o conteúdo.

Eu queria acreditar que todo mundo que fala do assunto tá no mesmo barco, e me negava a acreditar que existe perversidade em qualquer lugar do mundo, não só numa sala de aula ou numa multinacional, como a vida já tinha me provado.

Quando a sensação de ameaça toma conta

No meu curso sobre estresse com a Dra Cibele Castro, a gente fala sobre a diferença entre o estresse ocasional e o estresse crônico, e que este último está por trás de muitos malefícios à saúde e à nossa qualidade de vida. Que a sensação contínua de ameaça é o que nos desestabiliza.

Demorei pra me dar conta de que estava me sentindo diariamente ameaçada no meu trabalho. Que cada ação pode gerar uma reação eu já sabia – faz seis anos que eu escrevo sobre a minha experiência com o burnout e eu já vi as portas se fechando diante de mim, eu já recebi respostas querendo me desmentir no inbox. Mas até então, isso vinha do mundo corporativo, do qual eu hoje estou relativamente protegida.

Uma fala que vai ficar pra sempre na minha memória é a do psicólogo Renê Dinelli, ao falar sobre burnout entre professores na II Semana de Conscientização da Burnout, quando ele disse que uma das maiores dores do professor vem de perceber que quem ele enxergava como colega é na verdade seu adversário.

Eu não fui feita para o embate direto. Já neguei convites de participação em eventos e palestras porque sabia que teria que dividir o palco com quem nega que burnout exista, quem acha que burnout é frescura ou que falar em corresponsabilidade é vitimismo. Não tenho a força emocional, a rapidez no pensamento, a eloquência ou a paciência pra convencer ninguém. Por autopreservação, escolho dedicar meu tempo, atenção e serviço a quem já sente isso na pele e no dia-a-dia.

Acontece que, agora que tenho aprendido, eu nem sempre tenho essa escolha. Por mais que eu preserve meus dias, minhas relações e minhas parcerias com todo o cuidado possível, isso não me deixa totalmente imune. Jamais estaremos completamente imunes.

No último dia da III Semana de Conscientização da Burnout, eu recebi uma mensagem de uma conhecida. Na busca de fortalecer nosso vínculo através da milenar arte da fofoca, ela me contou de uma troca de mensagens com essa mesma pessoa cujas indiretas recebidas nos últimos meses vinham triturando a minha autoestima em doses homeopáticas. Nas mensagens, ficava evidente não só raiva, mas fúria direcionados a mim. Que eu não sei nada sobre burnout, que eu sou uma farsa, que tudo o que eu escrevo é mentira.

Eu queria poder traduzir a sensação de ter as piores coisas que a gente diz pra gente mesmo sendo ditas por outra pessoa. Mas não consigo.

Mais uma vez, fiz de conta que não era nada. 

Tinha um painel pra começar em poucos minutos. Acredite se quiser, deu quase tudo errado com o painel: a painelista praticamente não conseguiu entrar, o sistema de streaming ficou fora do ar e a gravação ficou com um bug incorrigível. Mas o painel foi transmitido, está lá no Youtube e o conteúdo – que é o que importa – é excepcional.

Algumas horas depois, prestes a começar o penúltimo painel dos mais de 20 da semana, uma das pessoas que me ajudou durante todo o evento levantou uma questão para pensarmos nos próximos, em relação à quantidade de painéis, ponderando que o ritmo é super intenso, questionando se é esta a mensagem que queremos deixar para quem nos assiste. O argumento é absolutamente válido, precioso e tem pautado muita reflexão nossa para as próximas edições, e essa pessoa segue sendo uma grande amiga e parceira. 

Mas tudo o que eu consegui pensar na hora foi: “eu sou mesmo uma farsa.” Eu desabei na frente dela, atrasei o painel seguinte em meia hora, precisei desconectar pra respirar, cheguei a cogitar não voltar ao evento. Por uns bons minutos, o chão sumiu dos meus pés. As chacotas públicas e as blasfêmias privadas estavam certas. O que eu estava pensando, o que eu estava fazendo da minha vida, o que eu estava fazendo com as pessoas?

Com a ajuda do meu namorado, que me fez respirar e me lembrou quem eu sou de verdade, voltei aos bastidores. Eu e minhas parceiras de evento conversamos, choramos, rimos e celebramos o poder de sermos parceiras de verdade, que podem falar a verdade. No painel seguinte, sobre a importância da rede de apoio na saúde mental, pude contar com a presença de amigos que hoje são minha rede de apoio. Foi muito especial poder celebrar esse encontro e essa cumplicidade.

Presa em janeiro

O evento passou, mas o inverno aqui da Holanda e a falta de sol não passaram. Janeiro, fevereiro, março, abril, maio… até poucas semanas atrás, eu dizia que me sentia presa em janeiro, e achava que isso tinha a ver somente com o inverno que não acabava.

Se a gente prestar atenção nas nossas palavras, percebe o poder que elas tem e as respostas guardadas nelas.

Quando eu dizia me sentir presa em janeiro, eu não me referia apenas ao inverno. Parte de mim ficou presa naquela dor porque eu não fiz nada com ela.

Mais uma vez, me machucaram, e eu quis fazer de conta que nada tinha acontecido.

Essa dor que eu carrego, há mais de um ano, me lembra da dor que eu carreguei quando era criança e era humilhada diariamente na escola, e da dor que eu carreguei quando adoeci em um trabalho que jogou a minha autoestima no liquidificador. 

Não é somente a dor do acontecimento. 
É a dor da minha impotência diante dele.

Encarar ou deixar pra lá?

Durante esse ano, pessoas amadas me disseram pra deixar pra lá, que não era nada demais, e eu tentei seguir esse conselho feito com a melhor das intenções.

Acontece que cabe a ninguém além de mim mesma decidir o que deixar pra lá e o que não deixar barato.

Em muitas das ocasiões em que eu decidi usar a minha voz e me defender, tive prejuízo – isso acontece quando a gente não tem prática.

Reivindicar meus direitos na empresa onde eu adoeci foi algo sem precedentes na minha história. Encarar aquele ambiente que, aos olhos de tantas pessoas (e aos meus próprios olhos durante boa parte do tempo) era um lugar tão maravilhoso de se trabalhar, sem filtros e com honestidade, me subtraiu e ainda subtrai amizades e contatos profissionais.

Precisei, literalmente, começar de novo profissionalmente. E por mais que isso tenha causado um imensurável prejuízo financeiro e emocional, garanto que isso salvou a minha vida.

Na verdade, não me interessa mais olhar pro que eu perco quando uso a minha voz. 
Porque o que eu ganho é a única coisa que realmente importa.

Por doído que tenha sido isso tudo, também foi um alerta da importância de saber quem vale o meu tempo, a minha energia e a minha atenção. Tenho comigo amigos, parceiros e colegas que admiro profundamente.

Cada relação merece tempo, cuidado e atenção – e eu certamente não sou impecável com elas, mas espero que cada pessoa que anda comigo saiba do quanto eu as considero especiais.

Essas pessoas tem me ajudado a aceitar a queda, a acessar os escombros e a recuperar as forças pra voltar, mais forte do que antes, mais potente do que antes, mais corajosa do que antes.

Desde que comecei a falar de burnout e saúde mental profissionalmente, criei uma narrativa interna de que, por falar desse assunto, eu precisava estar sempre bem. Como se uma crise fosse, além de tudo, um sinal de incompetência.

Ninguém tem o direito de pisar nos meus sonhos e de dizer que eu sou uma farsa

No curso de Saúde Mental no Trabalho, tem um módulo inteiro dedicado a estigma em saúde mental. Eu falo sobre psicofobia, sobre estigma institucional, como o preconceito se manifesta e como combatê-lo. 

E veja como ele é pervasivo: mesmo estudando e ensinando isso, ao considerar a minha crise como incompetência, eu reproduzo o estigma. Sem perceber, eu perpetuo a imagem de que quem é produtivo tem mais valor do que não é. Eu relevo os abusos que já sofri, achando que deveria ter mais resiliência, ao invés de celebrar a minha intolerância total a eles, construída a tanto custo nesses anos todos.

Porque isso tudo está introjetado na gente, a psicofobia se torna, antes de tudo, internalizada.

Foi nessas semanas de crise que eu ouvi essa voz interna, medrosa, que reproduz o perverso na tentativa de me proteger dele. Nessas últimas semanas, essa voz me pergunta se eu realmente sei do que eu falo, se eu não sou mesmo uma farsa por não estar bem, e se eu não estou fazendo um desserviço às pessoas que tenho a intenção de servir. Essa voz questiona se eu realmente tive dois burnouts, se burnout tem número, se eu realmente me recuperei dele, se eu crio conteúdo por ego e like. Essa voz introjeta os carrascos que eu encontro no caminho e martela as suas crueldades em todas as camadas da minha psique.

Precisei ficar em silêncio e me dispor a suportar ouvi-la. Precisei deixar as distrações de lado e ser uma detetive de mim mesma pra investigar no que ela rebatia e por que ela reverberava.

Precisei escrever isso tudo, porque é isso o que eu faço: eu escrevo.
E quando eu escrevo, como numa mágica, um caminho mais corajoso se materializa diante de mim.

Leva tempo pra reerguer-se do que foi sendo triturado lentamente sem que a gente percebesse. Mas dessa vez me sinto muito mais forte do que antes. E sei que não tô sozinha. 

Se cuide, se ouça, e se permita usar a sua própria voz.

Carol Milters
Carol Milters

Escritora, Investigadora & Facilitadora
Saúde Mental no Trabalho, Síndrome de Burnout, Workaholismo & Escrita Reflexiva


Autora dos livros, "Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout" e Um Passo Por Dia: Meditações para (re)começar, sempre que preciso idealizadora da Semana Mundial de Conscientização da Burnout e do grupo de apoio online Burnoutados Anônimos.

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Este post tem 8 comentários

  1. Ana Karoline

    Obrigada por compartilhar suas impressões e ganhos conosco!

  2. Dani Santis

    Carol Sandy de Holambra,
    Você é luz, sempre!

    Eu te conheci antes mesmo de te conhecer, e você é de verdade de todas as maneiras, da maneira virtual com um HH de mais de 6 horas com fuso da Holanda e da maneira presencial com um sorriso doce e uma risada engraçada.

    Nunca duvide de quem você é e principalmente de todas as vidas que você salvou, a minha é uma delas, obrigada por isso, sempre serei grata e tenho uma “dívida” eterna contigo, de uma maneira boa, é claro, cheia de amor.

    Te amo minha amiga.

    Fique bem. Se cuide.

  3. Cici

    Olá Carol, espero que vc esteja bem! Li esse texto todinho sentindo que me sinto muito parecida com vc! Só por isso já te digo e garanto que vc não é uma impostora! Vc fala de sentimentos possíveis de existirem em mim, em si, no outro… Mesmo que a gente não goste deles… Quando eu leio você, (ou escuto vc) eu sinto muita paz, eu me sinto mais calma, eu vejo que mesmo me achando sem saída, ainda que eu possa pensar e escrever sobre isso já é terapêutico! É irônico, não é? Eu também me sinto atormentada por não saber me defender e fugir dos embates… Só que saber disso também me faz um pouco mais forte… Eu estou passando por um momento de limbo, nem “melhorei” e nem estou “ruim” e ainda me vejo pensando no que os outros vão pensar… Mas daí eu paro e me “recomponho” e penso no que eu quero pensar! E ouvir a sua voz tem uma importância muito grande!!!
    Descanse, fique bem, fique forte! E assim que der continue!!!
    Um beijo e abraço bem carinhosos!

  4. Cibele Castro

    “Quando Pedro fala de Paulo”… sabe como é, né…
    O trabalho que você faz, Carol, é tão cuidadoso, tão embasado e tão generoso, que falarem qualquer coisa diferente não faz nenhum sentido. Ainda mais pra quem te conhece nos bastidores e sabe o quanto realmente você estuda e se preocupa com o impacto que as suas palavras vão ter para as outras pessoas.
    É maravilhoso poder aprender com você sempre que leio ou assisto/escuto algum conteúdo seu. E sinto muito orgulho de fazer parte dos seus projetos, como o curso sobre estresse e a Semana de Conscientização da Burnout.

    “Não permita que ninguém te ensine a ser uma pessoa boazinha, que aceita as violências, e que desaprende a respondê-las.”  Alexandre Coimbra Amaral
    E a resposta veio na forma de mais um texto incrível!
    Conte comigo sempre!

  5. Sheilinha

    “Precisei escrever isso tudo, porque é isso o que eu faço: eu escrevo.
    E quando eu escrevo, como numa mágica, um caminho mais corajoso se materializa diante de mim.” Chorei lendo isso. Obrigada!
    ❤️
    Carol, como queria poder te dar um abraço, o amor ele cura e você é muito querida! Sinta meu carinho mesmo que de longe. Te quero bem. Meu coração tem muita gratidão, eu hoje me sinto muito frágil ainda, mas sabe eu admiro muito a sua coragem de não se calar, você realmente não está sozinha. As pessoas são só pessoas , isso é fato umas tem amor no coração e outras só maldades, são pessoas feridas buscando ferir usando um estilo de comunicação violenta e impiedosa no fundo é fruto de falta de maturidade e equilíbrio, é batido falar isso, mas não se dá, aquilo que não se tem! Seguimos dando o passo que puder, sua arte, sua fala, seu descanso, pausas mais que necessárias, fazem parte da sua verdade e sua experiência única e gentil, não se sinta culpada por incomodar quem não compreende. ❤️

  6. Priscila Hamada

    Carol, chego ao final da leitura com os olhos molhadinhos. Muitas das suas questões são minhas também. Há menos de um mês minha terapeuta me alertou que estou com sintomas da síndrome de burnout e todo o seu conteúdo tem me ajudado demais. Então, gratidão a você e seu trabalho! Só quem de verdade se importa com as PESSOAS consegue alcançar a compreensão de quem trabalha em prol de PESSOAS e não de likes. Likes são consequências, não um fim em si mesmo. Conseguimos enxergar o que temos dentro de nós. Quem enxerga como “busca de likes” é possivelmente…. porque essa é a busca dela.
    Fique bem e continue nos presenteando com seus conteúdos!

  7. Juliana Nunes

    Você é uma pessoa de verdade. O que você faz tem MUITO valor e ajuda muita gente. Já me ajudou e já ajudou muitas pacientes, que continuam citando o quanto aprendem graças ao seu trabalho. Por isso eu só tenho a te agradecer por encarar os riscos das redes sociais e a covardia que ela permite da parte de quem não tem nada melhor para fazer do que pisar no trabalho do outro para tentar subir… Infelizmente essa dinâmica está presente em muitos meios. Também a observo no meio acadêmico, e por isso mesmo acho seu trabalho extremamente útil! Sua forma de explicar de forma compreensível e com embasamento científico e responsável ajuda muita gente. Obrigada por tudo Carol! E que exemplo você transmite com esse texto… Se respeitar, se cuidar e ousar compartilhar! Te admiro e respeito muito!!
    Um abraço bem apertado.
    Prof. Dra Juliana Nunes
    Haute École Pédagogique de Fribourg
    Suíça

    1. Carol Miltersteiner

      Obrigada do fundo do coração pela amizade, apoio e inspiração, minha amiga querida. Sou tua fã de carteirinha e fico honradíssima de receber esse teu carinho. Seguimos juntas ❤️

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