ARTIGOS

Sem corte seco

5 minutos de leitura
Quando foi a última vez que você ficou esperando o computador ligar? Que você ficou sentado ali, olhando por minutos, enquanto ele iniciava o sistema operacional. Você parte de uma tarefa para outra em um instante? O quanto você está presente?

Neste artigo

Já notou a diferença entre assistir a um filme no cinema e em casa? Como você fica imerso no filme e parece entender melhor dele? O motivo disso é simples, e vai além do (óbvio) som infinitamente melhor e da tela gigante. Tem a ver com o caminho que você percorreu até sentar naquela poltrona, olhando somente para a tela. Tem a ver com o estado entre o que você estava fazendo antes, e o quanto você é levado a tornar-se presente.

Há alguns anos, eu li um artigo em algum lugar da internet sobre as transições que ocorrem na nossa vida, e o papel delas em transportar a nossa mente de uma coisa para outra. Apesar de ter procurado pra caramba, nunca mais encontrei o tal do artigo. Mas eu  lembro de aprender que as nossas experiências podem direcionadas por essas transições, entre um estado e o seguinte. Entre aqui e lá. Esses momentos, embora a gente nunca note, são extremamente úteis e podem ser decisivos em como levamos as nossas vidas.

A gente subestima a transição.

Pensa numa coisa: quando você assiste a um filme no cinema, depois de toda o trabalho que você teve até chegar lá, o que acontece primeiro? As luzes e as músicas vão baixando, bem devagar. Depois disso vem os anúncios, e depois os trailers, e a abertura do filme. E é só depois de tudo isso que a gente assiste ao filme de fato.Quando ele termina, você não levanta sai correndo da sala, nem se teletransporta pra casa. Você ficar sentado e assistir aos questionáveis créditos finais, enquanto a luz vai reacendendo lentamente.

Você lembra de algum filme que te tocou tão profundamente que te fez ficar olhando a tela por um tempo, antes conseguir levantar e sair?

O que acontece é que essas transições te tornam presente. Elas voltam toda a sua atenção para onde ela precisa estar. Te dão o tempo que você precisa para mudar entre o estava acontecendo antes e o aqui e agora. E no fim, dá tempo para você se recuperar antes de voltar para “vida real”.

Corta para vida real, cheia de coisa pra fazer e constantemente conectada.

Os nossos dispositivos são cada vez mais rápidos e ininterruptos: você não precisa esperar o celular ligar toda vez que quiser usá-lo. Você não precisa pegar uma agenda telefônica para procurar o número de alguém antes ligar.

A gente tenta acabar as transições querendo tornar a vida rápida. E a gente está errado por querer fazer isso. Queremos reproduzir um filme à luz do dia e que ele apareça na TV 30 segundos depois de chegar do trabalho. Queremos que nossos emails ou mensagens cheguem na hora. Queremos receber a resposta na mesma hora.

Você fica na mesa depois de terminar de comer? Ou, você come em uma mesa de verdade, sem fazer nada além de comer além de talvez conversar? 

Para agora pra pensar no espaço entre a última coisa que você fez e neste exato momento. Provavelmente, é algo assim: fiz isso, fiz aquilo, fiz aquilo outro. Nossas experiências de vida, seja no trabalho, estudo, viagens, relacionamentos, estão nos levando a aniquilar, ou pelo menos ignorar constantemente, esses momentos de transição.

Eu te convido a refletir sobre as experiências que teve no passado, ou até recentemente, onde você consiga perceber uma transição entre o estar aqui e ali.

Por exemplo, quando tenho um compromisso, gosto de chegar pelo menos 20 minutos mais cedo. Eu nunca tinha entendido o porquê (até agora), mas o que começou por uma questão de pontualidade acabou virando um momento valioso em que eu desloco a minha atenção pro que eu tenho diante de mim. Como resultado, sempre me sinto muito mais presente. E esses 20 minutos extras são muitas vezes a melhor parte do meu dia.

Quando foi a última vez que você foi pro trabalho sem tentar distrair-se do fato de que você estava indo pro trabalho? A última vez que você só prestou atenção naquele momento entre sair de casa e sentar na sua mesa?

Estamos em um contínuo ininterrupto de ação, reação e distração. Aprendemos a achar que a nossa vida deve ser uma sucessão de itens a riscar e uma gincana onde você termina uma coisa e sai atrás de outra imediatamente.

Chega disso.
Chega, dá um tempo nisso.

Não tenta remover ou adiar as transições que fazem parte do teu dia. Pode ser mais produtivo ouvir um podcast ou um livro no trajeto pro trabalho. Mas só uma vez, tente apenas estar presente naquele trajeto. Se você leva 40 minutos para chegar no trabalho, dedique 40 minutos à sua mente para se adaptar do modo de casa/descanso ao modo trabalho.

A beleza da transição está nas pequenas coisas: a espera pela água no chuveiro aquecer antes de entrarmos no banho, o fim de uma música e o começo de outra. Os minutos antes do garçom trazer o seu pedido. O intervalo de 15 minutos antes da sua próxima reunião. As horas antes do show da sua banda preferida.

Não tente preencher isso com outras coisas.

Porque se você prestar atenção, a magia da transição também está nas coisas grandiosas, e a natureza nos mostra isso todo santo dia. É só prestar atenção.

Observe o nascer do sol e o pôr do sol. Sinta o dia começando e terminando. Olhe as flores desabrochando, note como a sua rua muda quando chega o verão, inverno, primavera ou outono.  Observe quanto tempo demora para que as árvores sequem depois da chuva. Toda forma de vida, incluindo a nossa, está em constante transição.

Tudo está em transição, por que não aproveitar?

Às vezes pode parecer que a sua vida tem sido um monte de eventos consecutivos, mas pense bem. Foi mesmo? Ou você simplesmente não estava prestando atenção?

Você nunca passou um dia sequer entre empregos, entre projetos, entre cursos, entre relacionamentos? E será que você aproveitou aquele momento ou estava apenas desejando a próxima coisa?

Ficamos ansiosos pelo próximo passo. Subestimamos o poder desses momentos de transição em tornar-nos muito mais preparados para o que está por vir. E especialmente, mais presentes para isso.

Não é um corte bruto. É uma sequência de transições suaves.

Há três anos, decidi tirar um ano (e meio) sabático.

A pergunta que mais me fizeram (depois de, “como assim?!”) foi, “o que você vai fazer depois?”. Todas as vezes, a minha resposta foi, “eu não tenho ideia, e achando isso maravilhoso”.

Era verdade. De alguma forma, eu sabia que estava me preparando para outras coisas, outras situações, mas não tinha ideia do que podia ser. Ainda bem que me permiti dizer “não sei” para a pergunta mais importante da minha vida naquele momento. E eu tinha consciência o suficiente para saber que aquela passagem era necessária, que eu não podia pular de um galho pro outro. Que não seria sensato, não funcionaria e com certeza não teria a menor graça.

Quando me permiti entrar em estado de transição e até me divertir com aquilo, foi quando eu cheguei aos lugares, situações e pessoas que eu jamais poderia ter imaginado.

E eis que eu me vejo em transição, de novo.

Eu não cheguei lá ainda, então não me pergunte para onde estou indo porque eu não sei. Cada vez que consigo superar a ansiedade de adivinhar o destino, eu aproveito muito mais o caminho. Estou me permitindo navegar em qualquer direção que faça sentido.

Você não vê muitas pessoas falando enquanto estão atravessando esse lugar de transição. A gente normalmente vê quem já chegou do outro lado, já encontrou o que estava procurando – ou faz a gente acreditar que encontrou. 

E quando essa transição não envolve a viagem da sua vida? Aqui, da minha escrivaninha cinza, eu te digo que pode ser terrivelmente chato às vezes, e assustador o resto do tempo

E tudo bem, porque eu sei que a tal da luz vai brilhar depois do túnel, assim que eu chegar lá. E que depois dessa luz vem outro túnel, e outra luz, e outro túnel, até o fim. Eu sei que agora é hora de sentar, esquecer o que veio antes e voltar a minha atenção para o filme que já está engatilhado pra começar a qualquer momento. Porque é assim a vida. Para todo mundo.

E enquanto isso, posso ficar bem sentada na poltrona comendo uma pipoca.

<b>CAROL</b> MILTERS

CAROL MILTERS

Escritora & Investigadora da Saúde Mental no Trabalho | Síndrome de Burnout & Workaholismo

Deixe seu comentário e continue a conversa

0 0 votes
Avaliação deste texto
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários

Acompanhe @carolmilters nas redes sociais:

Artigos e dicas sobre saúde mental no trabalho, síndrome de Burnout, workaholismo e escrita terapêutica no seu e-mail:

Leia mais sobre Síndrome de Burnout,
saúde mental na relação com o trabalho e escrita terapêutica:

Dominguemos.

Domingou por aqui.E por aí? Precisei aprender o valor do dolce far niente na marra. Ainda me culpo quando não consigo – ou até mesmo

Continue lendo »
0
O que achou deste texto? Me conta nos comentários 💛 x
()
x