Uma pessoa em busca de uma relação saudável com o trabalho incomoda muita gente

Até hoje, volta e meia, eu sinto na pele (e, especialmente, no bolso), o quanto me custa não viver pra trabalhar. Eu ainda sinto a ironia das pessoas que não entendem as minhas pausas, os meus recolhimentos, as minhas indisponibilidades e as minhas demoras.

Eu não tenho haters (que eu saiba), nem recebo mensagens ofensivas direcionadas ao meu trabalho e ao que eu faço. Mas isso não quer dizer que a minha mensagem, a minha forma de existir e minhas práticas não gerem um incômodo em quem está do outro lado. Quem faz diferente se arrisca a incomodar, se arrisca a gerar desconforto, a atrair olhares julgadores.

Isso acontece comigo.
E não é de hoje.


Tirar o pé do acelerador era impossível

Há sete anos, quando voltava de uma viagem de férias onde pude perceber claramente o tamanho do buraco em que eu havia metido a minha saúde mental e física por trabalhar sem parar, eu tentei aliviar o passo. Quando voltei ao escritório depois de um recorde de sete dias sem checar meus e-mails, a sensação era de que eu me movia a 20 km/h enquanto todos, todos na minha volta, metiam o pé no acelerador sem dó, e funcionavam a 140 km/h.

O descompasso me acompanhou por alguns dias, e eu me perguntava se não seria possível reduzir a velocidade das outras pessoas, já percebendo que aquilo não era um jeito sustentável de se manter uma rotina. Pensei: de repente, se eu chegar a 70 e o meu entorno também chegar a 70km/h, a gente consegue se acompanhar sem grandes solavancos.

Não deu.

E foi ao perceber a imensa diferença de estilo, de ritmo e até mesmo de valores que eu percebi que não era mais possível ocupar aquele espaço, pelo menos por um tempo. Entendi que eu o meu acelerador havia chegado no limite e não tinha mais o que dar. Pedi um tempo, um afastamento, e fui recebida com um misto de apoio e descrença.

Nos meses que seguiram da minha decisão, a organização fez questão de deixar claro que o problema era eu, não eles. Que, sim, eles poderiam tolerar que eu precisasse descansar um tempo, mas não que eu precisasse reduzir a marcha de modo permanente. E assim se deu o meu desligamento.

Unilateral, traumatizante, porém também libertador.


“Não sei se ela vai dar conta”

Dois anos depois, eu me via em um novo emprego, agora mais madura, mais terapeutizada. Trabalhei em tempo integral por algumas semanas e, ao perceber que aquilo ia além dos meus limites, solicitei uma redução de carga para 32, podendo tirar um dia de folga na semana.

A reação da gestão diante de mim foi positiva, já que eu entendia a natural e justa redução de salário que aquilo acarretaria, e tinha a esperança de que assim poderia trabalhar melhor.

A reação dos bastidores foi outra. Meus pares iam ao meu gestor comunicar “preocupação com a disponibilidade ao cliente” em função da minha folga semanal. O próprio gestor começou a me perguntar, nas reuniões quinzenais, até quando eu precisaria desse tal dia de folga, já que “a gente te contratou pra estar com a gente em tempo integral”.


Nadando contra uma correnteza violenta

Até hoje, volta e meia, eu sinto na pele (e, especialmente, no bolso), o quanto me custa não viver pra trabalhar. Eu ainda sinto a ironia das pessoas que não entendem as minhas pausas, os meus recolhimentos, as minhas indisponibilidades e as minhas demoras.

Eu não sei o que esperar de um mundo tão cravado na fetichização da performance, tão cimentado na ilusão de que ser ocupado é ser importante, tão dependente das abismais diferenças entre quem manda e quem obedece, entre quem vive pra trabalhar e quem trabalha pra viver.

E eu também procuro exercer, a duras penas, um pouco de compaixão na direção de quem ainda enxerga isso tudo com imenso cinismo. Eu lembro a mim mesma que, se eu não tivesse passado por tudo isso, talvez eu também não entenderia. Afinal, a Carol de 7, 8 anos atrás faria uma piada sem graça com a pessoa que cumpre exatamente a carga horária, nem um minuto a mais, nem uma gota de suor a mais, nem uma preocupação com o sucesso estrondoso da empresa a mais.


“O ser humano aprende na base do prejuízo.”.

Após sua palestra sobre o livro “Rápido e Devagar”, eu perguntei ao psicanalista Haendel Motta se ele tinha alguma esperança de frearmos a aceleração contínua e exponencial na qual vivemos. Ele me respondeu: “O ser humano aprende na base do prejuízo.”. E eu concordo com ele.

Cultivar uma relação mais sustentável com o trabalho incomoda quem ainda não sofreu o prejuízo de chegar no fim da linha. Incomoda porque desafia as convicções de quem “chegou lá”, e apavora quem ainda está lutando pra isso. Incomoda porque ninguém quer estar errado, principalmente um gestor, principalmente um profissional experiente. Incomoda porque faz pensar na vida que acontece lá fora enquanto nos deixamos sugar pelos nossos dispositivos.

Talvez, como disse o Haendel, a conscientização e a mudança dependam de algum prejuízo – seja ele direto ou indireto, vivenciado ou testemunhado.

Daqui onde eu estou vendo, o prejuízo já está batendo na nossa porta. As pessoas já estão se desligando das empresas aos montes (meio milhão ao mês, o dobro do registrado antes da pandemia). O Brasil já sofre uma epidemia de depressão, ansiedade e burnout. Quem não está em insegurança alimentar, desempregado ou em um trabalho precarizado, está querendo mudar de emprego. Os EUA já despendem trilhões de dólares ($4.6 mi somente em profissionais da saúde) em tratamento e turnover, dinheiro que poderia ser destinado à prevenção.

Me dói incomodar algumas pessoas, evitativa que sou. Uma parte de mim ainda quer agradar a todos, ainda quer ser hiper competente, querida e respeitada por onde passo.

Mas me dói mais ainda abrir mão do que eu mais acredito pra agradar alguém.
Então, fique sabendo: eu sinto muito se te incomodo, mas não vou parar.

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Assinatura Escura CarolMilters.com Website Imagens 26 Burnout Neurodivergência e Criatividade no Trabalho (1)

Escritora, facilitadora e criadora de espaços de cuidado para pessoas atravessando a síndrome de burnout.

Autora dos livros Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout e Um Passo por Dia: Meditações para (re)começar, sempre que preciso 

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Carol Milters é escritora, facilitadora e criadora de espaços de cuidado para pessoas atravessando a síndrome de burnout.

Autora dos livros Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout e Um Passo por Dia: Meditações para (re)começar, sempre que preciso 

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