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O olhar de uma (ex) burnoutada para a definição da OMS sobre a síndrome de Burnout

O que nos garante que, assim que a definição da Organização Mundial da Saúde deixar de ser novidade, nós, que passamos pela síndrome de Burnout, não voltaremos ao estado de invisibilização? 

Neste artigo

6 minutos de leitura

Não se fala em outra coisa. 
Nos sites de notícias, nas redes sociais, nas revistas e nos podcasts. Nas últimas semanas, a síndrome de Burnout vem ganhando enorme evidência no Brasil, em função da definição inédita da Organização Mundial de Saúde, que enquadra o esgotamento como um fenômeno ocupacional, e entrou em vigor em janeiro deste ano.

Eu nunca dei tanta entrevista, recebi tantas mensagens e tantos pedidos para falar sobre a minha história.
Aceito todos os convites que consigo, falo sempre com prazer, orgulho e com responsabilidade.

E confesso que a sensação é, digamos, agridoce: por um lado, que bom que finalmente estamos levando isso a sério.

Por outro lado, o que nos garante que, assim que isso deixar de ser novidade, nós, burnoutados, quase burnoutados e ex-burnoutados, não voltaremos ao estado de invisibilização? 

Como acreditar em um futuro melhor, em que não somos depositados à margem da sociedade, como disse brilhantemente a professora Dra Deane Monteiro no painel sobre burnout entre professores, na Semana de Conscientização da Burnout?

Neste artigo, eu compartilho um pouco do meu olhar (de ex-burnoutada e de investigadora do assunto), sobre isso tudo que está acontecendo.

Por que demorou tanto para a Burnout ser considerada uma questão ocupacional?

Eu nem vou tentar dosar a pílula:

Esta definição só aconteceu agora porque o adoecimento pela síndrome de Burnout tomou tal proporção no mundo que ela não pode mais ser ignorada.

Esta minha hipótese tem dois fatores principais: um deles, vindo da própria área da saúde (especialmente, saúde mental), e outro, vindo do mundo do trabalho. 

A Organização Mundial da Saúde tem dado uma atenção especial à saúde da mente nos últimos anos, motivada pela comprovação de que a depressão é a principal causa de incapacidade em todo o mundo

Já no trabalho, o comitê brasileiro da International Stress Management Association apontou, ainda em 2018, que aproximadamente um em cada três trabalhadores já exibia sintomas da síndrome de Burnout no Brasil, colocando o nosso país como o segundo mais “burnoutado” do mundo. Só ficamos atrás do Japão, onde a taxa de esgotamento profissional é de impressionantes 70%. 

A inclusão do esgotamento profissional como fenômeno ocupacional é parte de uma série de iniciativas que a OMS tem colocado em curso pra impedir o tsunami de adoecimentos por questões psíquicas – um tsunami que já se anuncia há anos, e que com a pandemia de COVID-19 só se tornou mais iminente e intenso.


Se já sabíamos que isso ia acontecer, por que o tema só está ganhando ênfase agora?

É curioso pensar que tem-se falado tanto nesta definição da OMS nas últimas semanas sendo que ela foi amplamente divulgada há quase 3 anos, ainda em maio de 2019

Logo após a divulgação, a procura pelo tema aumentou consideravelmente, tanto pela repercussão na imprensa como por dois casos que ganharam notoriedade no país: o da cantora Anitta e da apresentadora Izabella Camargo

A jornalista Izabella Camargo, que sofreu com a síndrome de Burnout em 2019
e hoje fala sobre saúde mental, produtividade sustentável e autocuidado (instagram)

Se, por um lado, Anitta não confirmou ter passado por um esgotamento, a jornalista Izabella Camargo não só assumiu abertamente seu diagnóstico, como se tornou uma das vozes mais importantes na conscientização da síndrome no Brasil.

Na época, publiquei um artigo, que está aqui no site, sobre o estigma que a burnout representa para quem passa por ela, e sobre quem ganha com o nosso silêncio. 

Além da Izabella, outras pessoas estão ocupando este espaço há mais tempo do que eu e devem ser celebradas por isso, como a Helloá Regina, do Vencendo o Burnout, a Roberta Carusi, com seu relato no livro No Limite do Stress e a consultora Luana Segato.

Respondendo a pergunta lá em cima:
minha hipótese para a repercussão ter voltado a aumentar nessas últimas semanas é um conjunto de fatores formado por:

Por que a Síndrome de Burnout tema só está ganhando mídia agora?

  • Maior repercussão e mais relatos de pessoas que passam por isso sendo contados nas redes sociais e até mesmo na Sucessolândia.com (digo, LinkedIn)
  • Efeito cascata: quando o primeiro grande jornal cobre um assunto e existe interesse do público, é uma questão de tempo até que os demais também corram atrás do tema.
  • Brasileiro gosta de deixar tudo pra última hora: é cultural, faz parte. Tivemos três anos para aprender, para nos acomodar e para nos preparar para esta mudança. Mas você já viu uma mudança acontecer com tanta antecedência?


Afinal, isso muda alguma coisa?

Nesta 11a atualização do CID (Cadastro Internacional de Doenças), a OMS deixa claro que a síndrome de Burnout é causada pelo estresse advindo do trabalho. O novo código para Burnout, QD85, detalha mais a síndrome e a coloca como um fenômeno ocupacional. 

Quando eu adoeci, parecia claro que a responsabilidade era minha: eu que era fraca, eu que não dei conta.
Hoje, até (e inclusive) para fins legais, a empresa é devidamente responsabilizada. 

Essa mudança tem, sim, o potencial de promover uma grande mudança na forma como a síndrome é vista hoje. 

Do ponto de vista prático:

Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de que seus sintomas estão ligados à síndrome de Burnout, ela hoje tem um nexo causal de que a empresa e o trabalho foram os causadores do adoecimento. 

Eu desejo profundamente que isso facilite o processo de quem já está passando por isso, nas dolorosas perícias do INSS, nos burocráticos pedidos de afastamento, nas tão frequentemente injustas decisões judiciais. 

Do ponto de vista estratégico:

Essa mudança também é muito relevante: isso faz com que organizações que até pouco tempo atrás se eximiam da responsabilidade sejam forçadas a encarar o problema de frente. Minha esperança é de que isso gere um efeito dominó, e que incentive a conscientização e a educação de saúde mental em todos os espaços.

Às empresas, agora a escolha é se preferem ser parte do problema ou da solução.

A mudança não acontecerá da noite pro dia.
Mas este é, sem dúvidas, um passo significativo.
E merece ser celebrado.


O que isso tudo significa pra quem já passou por isso antes da síndrome de Burnout se tornar o assunto do momento?

Muita coisa.

No âmbito individual, vem um sentimento de alívio, acompanhado com um toque de “por que só agora”? É como se essa oficialização validasse que meu sofrimento não era frescura, que a culpa realmente não foi minha

Essa sensação vem de uma parte humana, frágil e dependente de validação externa. Uma parte que já ocupou muito mais espaço em mim, mas que hoje eu entendo que sempre fará parte. É um pedaço nosso que todos temos, que pede colo, que pede aprovação.

No âmbito coletivo, eu sinto muito por quem não teve seu sofrimento validado até o dia 01/01/2022. Eu sinto muito que a gente precise de um diagnóstico pra poder olhar pro mundo e dizer que não estamos felizes sem que o mundo nos mande engolir o choro e seguir o script. Eu sinto muito que tantos de nós só consigamos aprender na dor, na doença e no prejuízo financeiro.

Não é muito simples se ver trabalhando para ampliar a conscientização de um tema que só desperta quando dói em alguém, seja na saúde ou no bolso. 

Mas aí eu preciso fazer a minha autoanálise, estocar uma tonelada de compaixão, e lembrar que eu mesma só entrei nessa missão depois que doeu em mim.

O que eu espero, do fundo do coração, é que esse aumento no interesse promova uma mudança real em alguns ambientes e em algumas vidas. 

Não posso ousar esperar que o mundo mude da noite pro dia, que o sistema que nos coloca no ciclo produção-consumo-esgotamento seja transformado inteiramente na minha geração. 

Mas como aprendi com uma fala belíssima do Pastor Henrique Vieira, agir na esperança é plantar sem saber o que se vai colher, ou quando.

Não há como prever o que será da nossa relação com o trabalho no futuro, o que será da relação entre líderes e liderados, o que será da cultura que temos ao redor do trabalho no Brasil ou no mundo. 

Não há como saber quais os reais efeitos dessas mudanças, ou do trabalho de conscientização.
O que há é o trabalho diário, de grão em grão.
De vida em vida. 

E é nisso que eu acredito de verdade. 

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Se este artigo te ajudou de alguma forma, compartilhe com quem você conhece. Pra saber ainda mais sobre a síndrome de Burnout, assista os painéis da Semana Mundial de Conscientização da Burnout, um evento anual, gratuito e sem fins lucrativos, com a missão de ampliar a conscientização em relação à Síndrome de Burnout e combater o estigma que a envolve, além de intensificar a divulgação de suas causas, consequências e tratamentos. A edição de 2022 acontecerá entre 28 de novembro e 02 de dezembro. Saiba mais e inscreva-se em ConscientizacaodaBurnout.org

Carol Milters

Carol Milters

Escritora & Investigadora da Saúde Mental no Trabalho | Síndrome de Burnout & Workaholismo

Autora do livro "Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout", idealizadora da 1ª Semana Mundial de Conscientização da Burnout e do grupo de apoio online Burnoutados Anônimos.

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Joice Cristina - @queridasanidade

Este é um dos melhores textos que eu já li sobre tal definição. Vai muito além de comunicar uma decisão, mas uma percepção profunda de uma pessoa que já vivenciou o burnout.
Vejo, cada vez mais, a mídia falando sobre a síndrome, organizações levantando bandeiras – o que não é ruim, não entendam mal -, mas ainda sinto que isso é só o começo e não podemos, de forma alguma, deixar o tema como uma informação passageira. Esse é só o começo.
Em um trecho você diz: “Por outro lado, o que nos garante que, assim que isso deixar de ser novidade, nós burnoutados, quase burnoutados e ex-burnoutados, voltemos ao estamo de invisibilização?”.
Isso me deixou emocionada, pois sei que os rótulos existem. As pessoas, mesmo sem perceber, nos resumem ao burnout. Nem sempre fazem uma análise de que a organização tem culpa – parece que a situação é resumida ao indíviduo. Sem contar que muitos associam o burnout com a fraqueza, o que não é verdade. O que é preciso gritar para o mundo que não.
Obrigada por sua escrita. Obrigada.

Marlene Miltersteiner

Que texto incrível, quem esteve contigo sabe o valor e o peso de cada palavra que faz parte dele .
O quanto te custou chegar até aqui e as marcas que ficaram.
Parabéns pela luta , por um passo a cada dia para te tornar a pessoa tão amada , reconhecida , valorizada por esse trabalho tão importante!

Eli de Castro

Parabéns pela escrita, vale ser compartilhado! Obrigada por estar a nossa frente!

Carla

Senti na pele a síndrome de Burnout. O Mundo corporativo não está preparado para tratar esse assunto com a devida seriedade. Quando falei que ainda não me sentia segura para voltar a trabalhar e ia me cuidar, a empresa rapidamente optou pelo meu desligamento.

Nathália Reis

Texto excelente Carol! Você também é uma das vozes importantes para falar sobre isso aqui no Brasil e fico feliz de acompanhar seu trabalho de perto! Eu burnoutei em 2018 e queria ter encontrado seu conteúdo naquela época tão complexa. Na ocasião, a empresa deu uma segurada na minha demissão e estendeu o convênio médico um pouquinho. Eu, inocente de tudo, achei que era um ato generoso e só depois me dei conta que a empresa era co-responsável pelo ocorrido. Mas como sempre, é o “você adoeceu e você que se vire” pois além do quadro de ansiedade eu tive paralisia facial devido ao estresse. Tudo isso com o “ela está passando por muitos problemas pessoais”, sendo que eu cansei de levar meus problemas de gestão da cia pro RH. Olhando essas noticias agora me questiono se isso não tira essa parcela de responsabilidade em termos de gestão organizacional. Porque tem diversas intervenções que podem ser feitas para evitar que o estresse vire um burnout e que devem ser aplicadas em parceria pelos lideres+RH+colaboradores. E com isso abre a frente do “mantém afastado e depois contrata outra pessoa”, afinal somos sim substituíveis no trabalho. Enfim, vamos acompanhar o desenrolar. E mais uma vez obrigada pela partilha!

@cibelecastro.slowlife

Há dias vejo meu alerta do Google pipocar textos e mais textos sobre esse assunto – que, como você mesma comentou, não é novidade – de maneira leviana e sem embasamento nenhum.
Já sentei para escrever sobre isso algumas vezes mas você me poupou um trabalhão! E de maneira maravilhosa! Agora, vou só encaminhar o link do seu artigo quando me perguntarem o que eu acho sobre esse assunto.
Relacionar oficialmente o burnout ao trabalho é importantíssimo para responsabilizar as organizações. Burnout não é culpa de ninguém individualmente, é resultado de uma disfunção da empresa. O “medo” que esse reconhecimento pode causar vai ser benéfico, se gerar preocupações reais com a saúde mental dos funcionários. Já sabemos que não adianta colocar piscina de bolinhas no escritório nem liberar cerveja na sexta. Essa maquiagem não vai mais enganar ninguém.
Sua preocupação, porém é muito válida. Até quando vamos ter esse sinal de alerta funcionando? Quando é que o burnout vai virar rotina e vai deixar de ser preocupação?
Junto-me a você no coro e espero que esse alerta só desapareça no momento em que realmente ele não for mais necessário, que as organizações possam agir com responsabilidade, que a produtividade não atropele a saúde e que todos lembrem automaticamente que saúde mental é saúde. E que sem saúde qualquer trabalho fica inviável.

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