Bati esse textão saindo do psiquiatra hoje.
Vem comigo.

Foi uma consulta só de notícias boas: a medicação que regula o humor tá funcionando, o tratamento focado em trauma tá indo bem, a terapia segue ajudando. Trabalho, relacionamentos, autoestima, ritmo. Nada perfeito, mas tudo em paz, tudo fluindo nos dias.

Ao sair do consultório, lembrei da minha primeira consulta com um psiquiatra aqui na Holanda: precisei implorar pra minha médica, tive que explicar que eu já tinha um histórico no Brasil e sabia que precisava dum especialista pra me tratar. Passei seis semanas em casa, deprimida, mal conseguindo cozinhar, aguardando aquela consulta.

O psiquiatra apareceu numa tela. Era uma videoconferência. Seis semanas me arrastando, e o cara nem pra ir de Utrecht a Tilburg (dá 1h de viagem). Contei a minha história, pela milésima vez. Ele olhou na minha cara (ou melhor, pra câmera), e me disse que o meu problema mental era muito mais complexo do que parecia. Que ele não se sentia qualificado pra me atender porque eu não falava holandês, e eu não conseguia manifestar as minhas emoções em inglês da forma adequada pro tratamento. Ficou discutindo meu caso com uma psicóloga, comigo na sala, como se eu nem estivesse ali. Voltei chorando pra casa, desesperada.

Me senti encurralada, num país estrangeiro, impotente diante de monstros indomináveis, ainda arrasada pelas traições impublicáveis que me fizeram sair correndo do meu país.

Eu achava que tava fazendo a coisa certa, e a cada dia, parecia que as coisas davam mais errado.

Senhor psiquiatra, que bom que você assumiu pra mim a sua incompetência.

Não fosse por isso, eu não teria passado um ano e três meses procurando um psiquiatra aqui na minha cidade e não teria encontrado o psiquiatra que vem me atendendo há 8 meses com tanto profissionalismo e paciência. Que não questionou as minhas escolhas , que apoiou a minha psicoterapia no Brasil, que me prescreveu uma medicação que me permite funcionar. Não fosse pela sua negligência, eu não teria me jogado nos livros, nas pesquisas, nos TED Talks.

A minha sorte é que eu sou teimosa. Eu posso até aceitar ser destratada aqui e ali, mas eventualmente algo muito profundo me coloca em disparada buscando respostas.
Você que tá se sentindo encurralada por alguma coisa da vida, respira. Vai ficar tudo bem. Ou quase tudo bem. Mas vai ficar melhor.
Vá atrás do que te faz bem. Exija isso. Peça ajuda. Peça colo. Comece de novo, quantas vezes precisar.
Senhor psiquiatra, obrigada pela sua incompetência.
Foi um dos remédios mais amargos que eu já recebi, que não prestou pra nada, que só me piorou. Mas que pelo menos me impulsionou a seguir buscando.
Só não me diga que eu não sei manifestar emoções em outro idioma. Não pra mim, que escrevi uma porra dum livro em inglês.

Carol Milters

<b>CAROL</b> MILTERS

CAROL MILTERS

Escritora & Investigadora da Saúde Mental no Trabalho | Síndrome de Burnout & Workaholismo

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