Crônicas

“Eu não me esqueci de quem ele é.”

Arquivo_005 (1)

Uma pessoa que fez parte da minha vida por muitos anos me contou uma história: uma mulher cuidava do marido, que tinha Alzheimer. Uma vez, vendo a dedicação dela pelo marido, alguém perguntou: “ele nem se lembra mais de você, por que visitá-lo todos os dias e cuidar tanto dele?” E ela respondeu, “ele pode ter esquecido de quem eu sou, mas eu não me esqueci de quem ele é”.
.
.
Meu avô materno faria 87 anos essa semana. Ele faleceu mês passado, depois de mais de uma década com Alzheimer. Minha mãe cuidou dele até literalmente o último segundo. Meu pai e ela não mediram tempo, cansaço, nada, dedicando-se a ele de forma quase heroica.

Quando alguém adoece ou passa por uma situação difícil, é um peso imenso pra quem está do lado. É desafiador amar quem não parece mais estar ali, seja por uma limitação física, mental, emocional, ou por um período de confusão.

Todos nós passamos por momentos em que não somos a gente. Seja por estar passando alguma dificuldade, por estar lutando contra algo pesado, por estar sem o norte do que realmente importa.

E são essas pessoas, que lembram de quem a gente é, que nos levantam. Elas sabem que a gente é mais do que a doença, mais do que a névoa, mais do que a soberba. Sem saber, ou sabendo, elas nos conduzem de volta pro centro. Ou, quando não é mais possível voltar, nos carregam pela mão para a hora mais escura.

Jamais me esquecerei dos carteados, das risadas, dos churrascos, dos passeios e das mágicas do meu avô. Jamais me esquecerei do carinho dele com os bichos e as crianças, do quanto ele sacrificou pela família.

Eu garanto que tem alguém aí do teu lado que também não esquece das coisas mais simples e mais essenciais de quem você é.

Eu agradeço todos os dias pelas pessoas que tenho ao meu lado – no Brasil, na Holanda, em outro plano.

Aos que não se esquecem de quem a gente é.
Aos que permanecem do nosso lado, mesmo quando parece impossível.
E aos que nos ensinam a não esquecer.

Parabéns, vô.

PS: a história, originalmente, era sobre o marido cuidando da esposa doente. Mas para o contexto da frase principal aqui, inverti os gêneros. 😇

Carol Milters

Carol Milters

Carol Milters

Escritora & Investigadora da Saúde Mental no Trabalho | Síndrome de Burnout & Workaholismo

Autora do livro "Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout", idealizadora da 1ª Semana Mundial de Conscientização da Burnout e do grupo de apoio online Burnoutados Anônimos.

DEIXE SEU COMENTÁRIO E CONTINUE A CONVERSA

0 0 votes
Avaliação deste texto
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários

Artigos e dicas sobre saúde mental no trabalho, síndrome de Burnout, workaholismo e escrita terapêutica no seu e-mail:

Mais crônicas

Nunca foi sorte

 A sorte e o inesperado são inegáveis.Chame isso de universo, de aleatoriedade, de Deus, de destino, mas entenda que não tá tudo na nossa mão.

Continue lendo »

Artigo em destaque

0
O que achou deste texto? Me conta nos comentários 💛 x
()
x