ARTIGOS

Eu vou embora do Instagram.

5 minutos de leitura

Neste artigo

Eu vou embora do Instagram.
Eu não quero aumentar o seu tempo de exposição a esse aplicativo.
Eu não quero que o meu trabalho dependa de uma plataforma que sabe do impacto negativo que tem na saúde mental de jovens e adultos e na democracia.

Uma plataforma que encontra evidências irrefutáveis disso em seus próprios estudos internos.
E que escolhe voluntariamente virar as costas pra isso em nome do lucro e do tempo de uso do aplicativo.

Meu quase terceiro Burnout

Mais ou menos um ano atrás, eu quase tive um terceiro Burnout.
Por causa do Instagram.

Eu estava postando duas, três vezes ao dia no Feed.
Obcecada pelo número de curtidas e pelo alcance.
Me coloquei de volta na roda do hamster que eu lutei tanto pra sair.

Estava dando ouvidos pra “gurus” que me diziam que eu podia chegar em dez mil seguidores antes do final do ano.

Em agosto de 2020, quando saí de férias, eu tive um problema sério de canal no meu dente, que gerou um abcesso e me colocou em um risco significativo de infecção.
Tive febre, passei os primeiros dias de viagem com dor.
Precisei achar um dentista às pressas em outro país, sem convênio, passar um dia inteiro no consultório, desembolsar uma fortuna imprevista. 

Aquela era a primeira vez em três anos que eu tinha um problema de saúde. 
E eu dei o peso necessário a essa informação do meu corpo.

Investiguei os acontecimentos e investi os meses seguintes em recalcular a minha rota.
Abri mão de uma briga judicial que estava tirando meu sono, minha saúde mental e minha alma, já fazia quatro anos. 
Instaurei uma rotina de paradas estratégicas a cada sete semanas, onde eu tiro uma semana de folga e apago todos os aplicativos de redes sociais.
Comecei a estudar e a fazer psicanálise e a olhar de uma outra forma pra quem eu sou e o que aconteceu comigo;
e criei este site, carolmilters.com, pra nunca mais ficar na mão do algoritmo.

Deu um trabalho danado – e ainda dá.
Custa bem mais dinheiro do que manter um perfil “gratuito” no Instagram. 
Mas como diz o velho ditado, se algo é de graça, o produto é você.

Então, decidi arcar com os custos materiais e imateriais.
E hoje eu tenho absoluta convicção de que fui na direção certa.

Se o meu Instagram fosse deletado hoje (como acontece com tanta gente), eu lamentaria muito, mas não me desesperaria. 
Além de ter um backup de todos os meus conteúdos, além de ter espalhado minhas produções em outras plataformas e ter adotado uma abordagem mais agnóstica de plataforma, praticamente metade das pessoas que me seguem já estão comigo diretamente, por e-mail ou telefone.

Todo dia, eu preciso me relembrar que o pensamento de longo prazo é mais eficaz e sustentável do que a gratificação instantânea.
Porque ela está ali, sedutora, ao meu alcance.

Eu não aguento mais reclamar do algoritmo

A minha realidade no instagram hoje é: ele me permite encontros e conversas incríveis, que eu realmente não sei se teria de outra forma. 

Algumas das minhas melhores amigas, hoje, eu conheci ou estreitei laços pelo Instagram. 

Amadureci como criadora de conteúdo e como escritora aqui e, morando longe da família, aprecio a conexão que esse aplicativo me viabiliza. 
Nas lives, eu converso com as pessoas, colaboro, recebo perguntas, comentários, relatos. Sei que o meu conteúdo aqui ajuda muita gente. 

E isso tudo é indiscutivelmente importante, significativo e poderoso.

Mas hoje, quando eu faço uma live de muito alcance, ela chega a, no máximo, 100 pessoas (dessas, menos de ⅓ efetivamente fica assistindo). Quando posto algo, preciso fazer um esforço imenso pra que 10% de quem me segue sequer receba o meu conteúdo.

Enquanto isso, tem gente que paga pra aparecer pra você.
Tem gente que polemiza pra aparecer pra você.
Tem gente que usa a religião, a ostentação ou o culto ao “corpo perfeito” pra aparecer pra você. 
Tem gente que faz dancinha pra aparecer pra você.
Tem gente que dubla pra aparecer pra você.
Tem gente que faz fofoca pra aparecer pra você.

Em pleno 2021.

E, na boa, eu tô cansada disso tudo.

Cansada de precisar saber qual o novo truque do algoritmo.

Cansada de ter uma plataforma com a experiência do usuário que é calculadamente a pior possível pra que você se frustre o suficiente pra continuar tentando postar e interagir.
Tô cansada de ser usada de massa de manobra e de criar conteúdo de graça pro Zuckerberg me vender em anúncios.

Eu abri mão de muita coisa quando decidi ir embora do mundo corporativo.
Abri mão de distribuição de lucros, de um cargo importante, de conexões valiosas.
Abri mão de uma reputação construída por quase dez anos.
Abri mão de carro, de apartamento, de móveis.
Abri mão do meu próprio país.

Porque eu entendi que aquilo tudo era um jogo que eu não tava a fim de me submeter pra jogar.
Porque eu entendi que aquilo tudo era uma ilusão, porque depois que eu vi coisas, eu não podia mais desver.

A sensação que eu tenho hoje com o Instagram é muito parecida.

Uma desilusão histórica

Eu li “Dez razões para apagar suas redes sociais” do Jared Lanier.
Assisti o Dilema das Redes.
Mas até ali, era uma questão de que as pessoas envolvidas perderam o controle do monstro que criaram.

E daí, vieram à tona os depoimentos da Frances Haugen, ex-gerente de produto do próprio Facebook.
O relato dela deixa claro, evidente, que o monstro é inteiramente conhecido por essas pessoas.

Que existe gente que levanta todo santo dia e vai trabalhar sabendo que vai apertar botão em algo que aumenta pensamento suicida, que piora transtornos alimentares, que ameaça a democracia.
Que deliberadamente, todo santo dia, volta pra casa tendo lido estudos, tendo participado de reuniões e tendo entendido por A + B + Z dos danos imensos desse monstro.

E é por isso que eu vou embora. 

As escolhas éticas nunca são fáceis.
Sempre que se opta por algo, se renuncia outra coisa: cada sim carrega uma fileira de nãos.

Ao ir embora do Instagram, eu renuncio alcance, eu renuncio fazer parte das vidas de pessoas que estão longe da forma mais cômoda possível pra elas. 

Eu renuncio venda de livros, venda de cursos, venda de consultorias, venda de palestras.
Eu renuncio o conforto de uma plataforma que me entretém e que eu já conheço de cabo a rabo.

Mas eu também me dou a oportunidade de cultivar outros espaços, de inventar outras formas.
Eu vou embora porque eu não acredito que tenha como voltar atrás.

Eu não acredito que haja conserto mantendo o aplicativo como ele é hoje.
Não há remendo, não há revisão de algoritmo que baste.

O monstro ficou grande demais pra ser domesticado.

E eu vou embora.
Mas não ainda.

Uma coisa que eu aprendi com a Frances Haugen é que a gente precisa ser estratégica.
Ela não levantou da mesa e saiu correndo da empresa.

Ela não jogou tudo pro alto.
Ela se preparou.

Ela resgatou todos os documentos, reuniu todas as provas, compilou todas as pesquisas, enquanto estava lá. 
Ela usou o contexto seu como arma.

Não sei quanto tempo se passou entre a decisão de a Frances ir embora e sua rescisão efetiva, mas foi tempo o suficiente pra que ela pudesse se equipar com o que hoje a permite depor diante do congresso norte-americano com a segurança de quem fez a sua parte.

Eu vou embora do Instagram, mas eu não vou sair correndo.

E eu posso comunicar isso sem medo, porque, por problemático que seja o algoritmo, pelo menos ele não é um diretor egóico que vai tomar isso como ofensa pessoal e querer me “queimar no mercado”.

E isso me dá vantagem.

Por isso, eu não vou embora correndo do Instagram.
Como disse antes, eu tenho muito a ganhar ainda.
Afinal, foi no Instagram que eu fiquei sabendo das acusações da Frances.

Eu ainda vou usar o meu espaço lá . 
Vou ocupá-lo por um tempo enquanto consolido as partes que estão além dele.
Mas assim que isso acontecer, pode anotar:

Eu vou embora do Instagram.


Leia aqui alguns trechos marcantes da entrevista de Frances Haugen ao programa 60Minutes

<b>CAROL</b> MILTERS

CAROL MILTERS

Escritora & Investigadora da Saúde Mental no Trabalho | Síndrome de Burnout & Workaholismo

Deixe seu comentário e continue a conversa

5 1 vote
Avaliação deste texto
Subscribe
Notify of
guest
5 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
Ana Paula Batista

Carol, que baita texto! Excelente reflexão. Também não quero compactuar com algo que adoeça as pessoas. Tenho moderado muito minha presença pelo Instagram e cultivando outros espaços que são meus. Não dá pra ficar construindo em terreno alugado. E olha… que paz tenho sentido!
Da mesma forma como você disse, também não vou sair correndo. Façamos essa transição com estratégia.
E pode ter certeza que te acompanho por onde for. Adoro ler seus textos. De vez em quando dou uma maratonada por aqui.
Beijo!

Lucas Kossovski

Que Texto! Que Reflexão! Amei a parte do se Algo é de Graça, o Produto é você. O Documentário do Dilema das Redes é incrível, nos faz pensar à respeito do que realmente acontece ou é por de trás da Fantasia, as Redes Sociais, e em específico Instagram (o que mais passo tempo navegando).

Winny

Em 2019, quando recebi meu diagnóstico de burnout, a primeira providência que eu tomei foi desativar meus perfis do Facebook e Instagram. Eu estava tão mal, mas tão mal, que tive medo de continuar acessando diariamente a realidade linda, rica, feliz e perfeita da vida que todo mundo levava nas redes sociais. Foi a decisão mais incrível e libertadora da minha vida! Eu voltei a bater papo com as pessoas pra saber das novidades, passei a escolher as coisas que eu ia ler, me aprofundei mais nos conteúdos que realmente me interessavam e consegui até encontrar um tempo que eu vivia dizendo que me faltava pra fazer algumas coisinhas que eu sempre adiava. Hoje sinto até um pouco de dó quando vejo as pessoas passando horas nas redes, é como se todo mundo vivesse no Show de Truman…

Acompanhe @carolmilters nas redes sociais:

Artigos e dicas sobre saúde mental no trabalho, síndrome de Burnout, workaholismo e escrita terapêutica no seu e-mail:

Leia mais sobre Síndrome de Burnout,
saúde mental na relação com o trabalho e escrita terapêutica:

5
0
O que achou deste texto? Me conta nos comentários 💛 x
()
x